domingo, 29 de janeiro de 2012

Feriados... e feriados....

O nosso mundo político anda cada vez mais cinzento.
E o cinzento até seria uma cor agradável, não fossem as indefinições e as hesitações que revela. Mas não é nada de novo no nosso país. Umas vezes foi assim, ou talvez foi sempre assim. Como o fado, um mar de lamentações e de fatalidades…Desta vez são as reformas, como se tudo fosse reforma, ou tudo tivesse de ser reformado. Ou ainda, todos para a reforma, e pronto!
O meu apontamento desta semana não poderá ser extenso, nem muito burilado no articulado. Apenas claro, como manda uma das regras básicas do texto escrito – clareza.
Acaba de sair ou está para sair a abolição de alguns feriados nacionais. Ora bem. É assunto, no meu entendimento, no qual nem se deveria falar. Ainda por cima pelas razões que se invocam.
Os feriados são marcas visíveis da nossa História. Sempre assim foram entendidos. Constituem a escola visível de ver e de ler durante o dia e a noite, de perceber e entender, de contar à criança que está ao nosso lado, sem andar a perguntar e a consultar os livros da escola. O içar da bandeira naquele dia representa uma identidade, que é nossa e de mais ninguém. Porque cada um tem a sua identidade e cada um respeita a do outro, e ninguém tem o direito de impôr seja o que for. Parece que só nós somos a excepção.
Num programa televisivo tive a oportunidade de sentir quão levianas são as ideias do “tanto me faz que seja feriado, como não seja, nada me diz este e aquele feriado, etc, etc.”
E fico abismado quando são palavras proferidas por pessoas eleitas pelo povo. E a razão é simples: quem tem o dever de falar em nome do povo, e sempre em nome do povo, não pode cair em deslizes desta natureza. Quando fala daquela forma está a negar-se a si próprio.
Os feriados são sinais da nossa História, meus senhores. São marcos da nossa identidade. Os feriados nunca foram causa nem motivo de menos produtividade nacional.
Alguns deputados, geralmente, quando falam de assuntos de Estado, fazendo-o publicamente em nome próprio, metem água por todos os lados. Ridicularizam-se a si mesmos e dão uma imagem negativa do Estado que juraram servir.
Mas prometi ser breve. E claro. Não faz sentido algum abolir os feriados que se tem indicado nos últimos dias. (1950 caracteres)
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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Uma visita à Casa da Montanha

Alertado, e também convidado, fomos até à Casa da Montanha no dia 14 de Janeiro, para participar numa tertúlia ambiental: divulgar a Montanha, alguns produtos da ilha, e… imaginem!...provar um chá.
        Confesso que, apesar da distância e do tempo não ser o mais convidativo, lá demandámos, por esses matos fora, por estradas bem conservadas, com excepção da longitudinal e alguns troços no acesso à Casa da Montanha. Ainda assim, transitáveis, sem muito solavanco.
Bem conservadas, e assim e assim, repito. E é o primeiro apontamento que registo. Felizmente que, antes das crises e das troikas, as estradas do Pico foram contempladas com as atenções merecidas. Não sabemos é para o futuro. Já que conservar o que se tem é, por vezes, bem mais complicado. Mas, vamos adiante…porque isso é o que está para se ver.
É sempre uma novidade subir até ao alto. Subir, nem que seja um cabeço dos muitos que esta ilha tem. Mas subir à “Montanha” é sempre uma frescura, um pisar de tapete de procissão, enfeitado das mais belas flores, rodeado de animais que nos olham mansa e docemente. Sem esquecer os simpáticos melros pretos, pardais, tentilhões e canários que constantemente se cruzam, ora para a direita ora para a esquerda, nas tarefas diárias, procurando alimento, fazendo ninho, tratando dos filhotes.
Mas não só. O olhar, o nosso olhar, vai sempre para as encostas, para o canal, para o Faial, para São Jorge, Terceira, Graciosa e tudo o que a vista alcança. Vai para o sol escondido, vai para a chuva que por vezes nos salpica, e também para o nevoeiro que nada deixa ver.
 O percurso levou-nos à Casa da Montanha, uma estrutura recente de apoio a quantos arriscam a subida até ao cimo.
 Arrumado o carro, para lá nos dirigimos. Fomos recebidos pelos responsáveis da iniciativa. Não fomos sozinhos. Outros já lá tinham chegado. Outros chegaram depois. Isso deixou-nos satisfeitos.
Afinal, um chá na Casa da Montanha, terá mais sabor rodeado de muitos outros, nas alturas da terra que pisamos. Muito longe de outros locais já consagrados da beira-mar.
Mas, antes, ouvimos o responsável, o senhor Geólogo Manuel Paulino, a dar as boas vindas. Um encontro para divulgação do que é nosso: a Montanha, em primeiro lugar que nos acolhe; e depois os produtos da nossa gastronomia – doces, bolos e biscoitos das padarias “Dos Feitais” e “Andrade” e as ervas aromáticas da “Casa Ávila” –, que os seus responsáveis trouxeram para este encontro de Chá na Montanha.
Presentes, que responderam ao convite, alguns estrangeiros e outras pessoas ligadas à cultura. Talvez umas 50 pessoas.
Já no regresso, pelo mesmo caminho, divagámos para outros horizontes culturais, deixando para trás alguns momentos da boa divulgação da ilha: do que nela se faz ou pode fazer. Neste caso menos divulgado, mas também importante.
Afinal, foi um encontro, que acabou por ser, também, um momento afectivo à Montanha do Meu (Nosso) Destino.
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Já chegamos à Madeira?

É uma expressão comum, usada quando, por vezes, se alteram os códigos de conduta. Se calhar, nada tem a ver com a Madeira, talvez com outras regiões. Também se costuma dizer, quando tudo nos parece a torto e a direito, e exclamamos: “isto mais parece uma república das bananas”!
        Ouvimos, semanas atrás, o resultado de uma lei feita no parlamento regional da Madeira, que valida o voto de um só deputado por todos os outros da sua bancada. Não sabemos se chegou a ser publicada, e se já faz parte do direito naquela Região Autónoma.
 A maioria dos deputados, sendo mais limitado seu número do que os anteriores, não permitiria muitas ausências. Para evitar votações negativas, nada melhor do que acautelar o resultado – fazer com que o voto de um só deputado tenha o valor de todo o grupo maioritário.
        Ao longo de todos estes anos que temos de vida democrática, temos assistido a muitos actos não democráticos e outros menos democráticos. Este que agora aconteceu é forçosamente “não democrático”.
        O mais grave é que aconteceu no coração do poder – na Assembleia Legislativa, onde se fazem as leis. Isto quer dizer que a corrupção, de que todos se lastimam, começa pela própria Assembleia.
        Assim sendo, não há democracia que resista. O caminho está aberto para tudo o que vier á cabeça de cada um. Se tudo se permite, ninguém se pode admirar dos resultados daí advenientes.
        Não vamos, neste apontamento dizer nada que já não tenha sido dito, quer a propósito deste caso e de outros, como o de Berlusconi, na Itália, que fazia aprovar leis só para seu benefício, para se livrar da justiça.
Não falamos das imunidades e das leis viradas para os próprios detentores do poder, para as regalias em transportes, alimentação e alojamentos. Em contraste com outros, como na Suécia, que deveria ser exemplo, nós, ao contrário, começamos por dentro – o melhor em tudo. Para, no entender do povo que se representa, estar tudo pior. Que bela democracia!
 É, afinal, o contrário do que deveria ser – em primeiro lugar os eleitores, o povo que vota. E, se vota, há-de respeitar-se o seu voto. Que começa no parlamento. Com a contagem dos deputados presentes. É uma condição democrática – a presença de cada um.
Por um se ganha e por um se perde. É a democracia que assim o exige. Se assim é nas urnas, também dever ser no Parlamento.
Manuel Emílio Porto
escrito segundo a ortografia antiga
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Festa do Padroeiro

A 17 do corrente foi dia de ir ao santo padroeiro – Santo Antão, patrono dos animais.
 Pelo caminho recordei os pastores do mato: “Ao portal das vossas vacas//Mamei leite nas tetinhas //Santo Antão vos guarde as vacas// Mais as vossas bezerrinhas”. Ou então: “Passei pelas vossas vacas // Mamei leite, deu-me sono // Santo Antão vos guarde as vacas // Mais a vós que sois seu dono”.
 Levei a minha prenda ao santo padroeiro, cuja freguesia o ministro Relvas quer riscar do mapa. Espero que se lembre que é seu protegido – já que também faz parte da lista dos humanos – e que o deixe em paz no seu trono.
        O tempo esteve nublado com boas abertas, embora bastante frio. Foi dia de ver gente mais velha, também do meu tempo, e de estar com os meus.
        De nada mais teria a dizer deste dia de Santo Antão. “Foi mais um, e este já está na conta”, diriam os mais velhotes. Mas há sempre uma nota a revelar ou a recordar.
        Os presentes a Santo Antão, em tempos recuados, eram mais a “talhada” do toucinho dos porcos do que de bonecos de massa sovada, como hoje acontece.
        As matanças eram quase sempre em Janeiro, o mês do Padroeiro. Os dias começavam a ser “apalavrados”, fixos, entre parentes e amigos.
 Depois das escolhas feitas e combinadas, estava o mês de Janeiro todo ocupado. Em tal dia, sou eu, em tal dia, és tu, e assim sucessivamente.
O mês de Janeiro era para matar os porcos. Depois, já em Fevereiro, havia as vinhas para cavar e as primeiras sementeiras nas zonas ribeirinhas.
        Os porcos, em Fevereiro, já deviam estar nas salgadeiras. Prontos para acompanhar homens e mulheres durante o dia nos campos a mondar, a tratar das sementeiras, a cuidar dos animais.
        Hoje, não há salgadeiras. Há os frigoríficos. Os animais já não lavram os campos nem puxam os carros. Em qualquer altura do ano se mata um porco. Tudo se modificou, tudo se liberalizou. Mais espaços para os afazeres diários, mas, entenda-se, o espírito solidário, permanece.
        Os costumes, pois, modificaram-se. Não com alterações substanciais, mas com as acomodações exigidas pelos novos tempos. Festas menos prolongadas como convêm. Como os novos computadores – menos volumosos, mais concentrados.
        Santo Antão também se acomodou. Deixou de ter toucinho, apesar de ainda se matarem porcos em Janeiro. Passou a ter mais promessas de massa sovada.
 Em vez de ser todo o dia de festa, que começava de manhã, passou a ter a missa Solene à tarde, seguida de arrematações e procissão. Como já acontece por todo o lado, até pelo Bom Jesus. Estamos na época do mini. Mas sempre, como ainda reclama o povo crente, não todo, no seu dia próprio. A Banda, este ano, foi a de Santo Amaro.
        Perante as crises que atravessamos, que também atingem os santos padroeiros, só nos falta dizer que esperamos, no próximo ano, voltar, nem que seja para ver se ainda preside aos destinos da freguesia. (2.471 caracteres)
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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

"Janeiro fora, mais uma hora"

Diz-nos o tempo que já levamos, que o “ditado” está ligado aos afazeres dos campos e ao tratamento dos animais. Mais uma hora para amanhar sementeiras e tratar dos bichos, mais uma hora da luz do dia, mais uma pequena economia nos gastos do azeite ou do petróleo. “Quanto mais tarde se acender a luz, maior será a economia! É preciso poupar!”
        “Mais uma hora”, hoje, continua a ser determinante para os afazeres, não só no campo como em noutros locais de trabalho. “Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”.
        Nos tempos presentes – com a indignação a não querer abrandar – faz sentido voltar a esta filosofia da ocupação do tempo, medido pela luz solar. Custa voltar a ser conformista sem o querer ser. Mas tem de ser. Dois passos à frente, um atrás, ou menos ainda, sabe-se lá.
Estamos em crise. Por toda a parte se fala na crise. A Europa que todos louvavam passou-nos uma rasteira, que deu em desgraça, e uma desgraça nunca vem só. E é verdade. Traz consigo outras desgraças.
        A Europa levou-nos para a sua mesa. Fez-nos estradas e pontes e barragens. Depois de tudo feito, outra Europa mandou-nos embora. “Vocês não as ocupam, não precisam delas, vamos nós ocupá-las”. “Vamos passar pelo vosso país deixando lá o que nos interessa deixar”. “Nós é que mandamos!”
E nós ficamos a olhar. De boca aberta. Ficamos pior do que dantes. Ficamos reduzidos às nossas courelas. Ao quase nada. De mãos a abanar.
Mas…não podemos ficar imóveis. O que fazer?
        Temos um remédio: ocupar o tempo, saber ocupar o tempo. Porque leva à poupança, leva a mais economia. Colocando sempre em primeiro lugar o sustento, evitando usar o que nos trazem de fora. Como agora, segundo as noticias que andaram por aí, de leite espanhol a 13 cêntimos o litro.
        É de ficar indignado. E dizer assim: fechem já as fronteiras. Nunca mais agente se levanta. Cotas para isto e para aquilo, e não há regras para os preços?
As alternativas começam pelas nossas hortas, pelos nossos campos. Nos mercados insulares. Com produtos tradicionais.
Este terá de ser o caminho, embora seja de opção individual, pois nunca uma autoridade regional, ou nacional, poderá legislar sobre as escolhas de cada cidadão. Dependerá das opções, e dos preços. Aqui, sim, tem a palavra o governo.
E depois, sempre tivemos outros caminhos. Os primeiros caminhos são sempre os melhores – os ultramarinos. Voltar a ter barcos para ir para longe e mais longe, sempre mais longe. (Não há amor como o primeiro). Nunca devíamos ter deixado encalhar os nossos orgulhosos barcos – o orgulho dos mares que foram.
“Mais uma hora” de trabalho em Janeiro, mais em Fevereiro e Março e por aí fora, é estimulo para mais produção. Para ocupação do tempo.
A nossa terra é das mais produtivas. Assim o entendam os mais novos, desabituados que andam nestas andanças e pouco motivados para estes apelos. Mas é o caminho. “Mais uma hora”. “De hora a hora Deus melhora, podes ter fé no rifão, mas não durmas, vai buscando remédios por tua mão”. (2570 caracteres)
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

As nossas freguesias

Refiro-me, hoje, a todas elas em geral, sobretudo àquelas que andam nas bocas do mundo, condenadas a serem colocadas em arquivo morto, as freguesias rurais. Isto é, sem préstimo. Apenas para consulta dos historiadores, quando a história começar a ser reescrita.
        Por enquanto, continuam as intenções e o possível desfecho. Todos esperam que esta chamada reforma não tenha passado de um simples devaneio, de político mal preparado – quiçá formado nas lojas da maçonaria – que não conhece a história do seu país, quão difícil foi a formação das freguesias e a importância que elas têm para os seus habitantes.
        Já vimos, nos jornais, o pensamento dos deputados regionais. De alguns, bem entendido. Estou em crer que todos vão afinar pelo mesmo diapasão, o uníssono, a unanimidade.
        E, atento e confiante, neste clima de esperança que se vive, (eu tenho esperança), voltamos a chamar a atenção para o espírito de grupo, nado e criado à volta da igreja paroquial e da escola primária. Padres, professores, lavradores, proprietários, pescadores, comerciantes, criadores de manadas, artistas da pedra, do ferro, do calçado, da lã e do fuso, do tear e das rendas, saberes e interesses conjuntos formaram a freguesia que chegou aos nossos dias. Houve conjunto de esforços, todos no mesmo sentido. A unidade acima de tudo. Houve grupo.
        Não queremos que tudo volte ao que era dantes. Não. Mas queremos que não se perca o espírito. A freguesia foi exemplo desse espírito de grupo. Na construção dos templos e das escolas, nas Irmandades, nas Companhias, nas Capelas do Espírito Santo e Ermidas de Santos à beira mar, nas reparações de pátios e caminhos, no abrigo que sempre encontrou para outros que vieram e se integraram. Nos tempos em que nada havia: nem água, nem luz, nem açúcar, nem sal, nem petróleo; por vezes nem farinha.
        Por necessidade aglomeraram-se. Vivendo no isolamento total, próximos uns dos outros era sempre mais consequente e seguro. Na catequese, na oração, na festa do padroeiro, nas primeiras letras. Na proximidade há mais conforto, melhor defesa, melhor entreajuda. E tudo extrapolou para a vida quotidiana. Nas matanças dos porcos, nas lavras, na manutenção dos caminhos de pedra roliça, na desflorestação, nas vinhas; em tudo o que estava relacionado com a vida de todos os dias do ano.
 É evidente que hoje não é assim. Mas…
Mas, há um valor que não se pode perder. É o valor da solidariedade ou de espírito de grupo. Fruto de uma mentalidade adquirida com suor e lágrimas. Hoje, noutros contextos, noutros modos de vida e de novas dificuldades, tem pleno cabimento.
Todos, hoje, são chamados a participar na vida colectiva da região e do país. Uns, porque foram eleitos para isso. Outros, porque têm voz e podem clamar fazendo ouvir a sua voz.
As freguesias rurais são ainda a base segura da ocupação do território, da sua valorização e do espírito comunitário que devemos preservar. É um crime se alguma for banida do mapa.(2548 caracteres)
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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O Santo Abade Antão

É a sua festa daqui a poucos dias. A 17 do mês. Neste concelho é padroeiro da Paróquia e FREGUESIA da Ribeirinha. Patrono dos que se dedicam aos animais. Dos animais domésticos, daqueles animais que são sustento e amparo de quem trabalha o campo. Porque é dos animais e do campo que vem, a todos, a vida. Mesmo para aqueles que habitam as grandes cidades.
        Ora, aqui está um bom tema para os dias que temos pela frente, celebrando Santo Antão, Padroeiro. Por isso o trazemos para reflexão, ou para uma simples leitura afectiva. Mas penso que neste momento, é mesmo bom pensar mais na terra que produz, na Freguesia, e deixar que o Padroeiro faça o resto.
        Os homens daquela freguesia, em tempos remotos, desconhecemos como e quando, certamente guiados pelos ensinamentos da santa Madre Igreja, escolheram, para a protecção da sua actividade, o Santo Abade Antão.
        Tido pela tradição como um santo eremita, de vida campesina, companheiro dos animais, melhor escolha não poderia ter sido feita. E se a fé foi motivo da escolha, então há que celebrar o seu dia, anualmente, no dia próprio que a santa Madre Igreja indica.
        Esta fé ainda persiste nos tempos que correm. Ainda hoje, a pequenina igreja paroquial se abre aos fregueses e a alguns forasteiros das redondezas. Vindos do sul e do norte. Depois da missa de festa, própria para os padroeiros, a procissão e arrematações.
        Na lírica popular recorda-se a cantiga: Passei pelas vossas vacas//Mamei leite, deu-me sono//Santo Antão vos guarde as vacas// Mais a vós que sois seu dono. Ao portal das vossas vacas//Mamei leite nas tetinhas//Santo Antão vos guarde as vacas//Mais as vossas bezerrinhas.
Uma lírica de solidariedade, confiança e de entreajuda nos destinos comuns, fruto da fé no padroeiro, são os nossos comentários desse espírito, que ainda perdura. Perdura na comunidade, e que importa salvaguardar.
        Aconteceu e continua a acontecer. Aconteceu em tempos não muito remotos na melhor qualidade de vida. Continua a acontecer, certamente, na consolidação de maior solidariedade, para os tempos próximos. Melhor dizendo: que voltam a ser difíceis, quase como antigamente.
        E se antigamente o espírito de comunidade existiu, seria bom que as dificuldades que se avizinham, movidas pelo ministro Relvas, não fossem a destruição desse espírito.
Por favor, que não haja destruição. Salvemos o espírito de grupo. Porque é no espírito de grupo, com o espírito de grupo que se vencem as dificuldades. Grandes ou pequenas. Concelhias, açorianas e nacionais. A freguesia é a imagem visível desse espírito.
Um pouco semelhante ao que se diz da família. Hoje está em marcha o apoio à sua coesão, que é, na verdade, o cerne da vida social. Pois o mesmo se deve dizer da freguesia, a mais pequena instituição colectiva das famílias aglomeradas.
E já dentro deste combate, levantado pelo ministro Relvas, a lírica popular continua atenta, sem entender desprepositada iniciativa: "Ao portal das vossas vacas // Mamei leite, deu-me azia // Santo Antão vos guarde as vacas // Mais a vossa freguesia". Ou então, compreensivamente: "Ao portal das vossas vacas // Cortei relvas, fiquei na minha // Santo Antão vos guarde as vacas // Mais a vossa freguesia".
        O Santo Abade Antão ajudou a fazer a comunidade. Vai ajudar, certamente, de novo. É o líder. Tem sido, e tem desempenhado bem o seu papel. Todos ao Santo Abade Antão – o nosso padroeiro! (2573 caracteres)
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Do Natal do "Atlântida" na Ponta da Ilha... ao Natal dos "Teólogos" no grande corredor superior

        O programa “Atlântida” do Natal de 2011 abraçou toda a gente. Dos Açores, do Canadá e das Américas. Foi até aos lugares onde há gente das ilhas. Cumpriu a sua missão de serviço público. Esperemos que o senhor ministro Relvas não corte a relva toda, na RTP Açores, como parece querer cortar.
 Se assim acontecer, desculpem a ironia, pode bem dar-se o caso de, ter sido a última viagem do programa, passar a haver menos serviço público, e o senhor ministro ficar a ser conhecido como o ministro corta-relvas. Para depois, se poder exclamar, como o poeta: “já não vem ninguém”, e o povo completar: o ministro cortou tudo. O que seria desolador para uma autonomia que ainda há pouco nasceu. Não seria aborto, já de si mau; seria infanticídio, que é pior.
        Feita esta observação crítica (em nada partidária, bem entendido), e relevando a importância da ligação fraterna com toda a comunidade açoriana, espalhada pelos quatro cantos do mundo, permitam-me que releve um aspecto que terá ficado na obscuridade, após a exibição pública do programa. Foi um programa cultural, mas também de sabor pastoral.
        Por muito que se queira dizer, separando conceitos, afastando sensibilidades, estão intimamente ligados entre si. Cultural e pastoral, dentro da Igreja Católica, são adjectivos que andam sempre de braço dado.
        Todos os componentes que intervieram na parte musical deram mostras da sua capacidade criativa. Do que são capazes de fazer. E o mesmo sucedeu com todos os outros participantes, mormente pelo seu criador/apresentador, sobejamente conhecido, e por outros que deram o seu testemunho qualificado.
 Na execução dos números musicais, dentro das suas limitações - que as tem - o Coro trouxe ao de cima os valores do natal cristão, nas suas vertentes culturais e religiosas.
                               ***
        Passadas algumas horas, e sentado a escrever duas linhas a propósito, lembrei os serões natalícios de outrora, no grande corredor dos teólogos de Angra, enfeitado de pinheiros, criptomérias e outras verduras, com luzes e luzinhas embrulhadas em papel colorido, ouvindo suavemente os alunos teólogos, (a capela da instituição) acompanhados ao piano pelo Artur Goulart, sob a direcção do Armindo da Luz, executando o vilancico “Nasceu, nasceu, pastores…”, o “Noite Feliz”, ou ainda o António Cordeiro, o Silvino Amaral e o José da Conceição, a executar uma bilbaína que começava assim: De colores se vesten los campos en la primavera… Mais as poesias, mais os pequenos trechos lidos, mais algum pequeno extracto de comédia ou de opereta. Costumes internos de todos os anos, de todos os natais, de todos os cursos, sempre com novos protagonistas, de todas as consoadas e de todos os presépios, armados nas redondezas da porta de entrada, com acesso à sala de música - sala de aprender e de ensaiar. Sala de ouvir atentamente o mestre, guia seguro de vozes e emoções. Este foi um programa que nos transportou a todos estes lugares e tempos recuados, menos recuados e mais recentes. Levou-nos:
- Aos primeiros passos, na seara, às primícias musicais, carinhosamente amparadas pela já idosa D. Alice Borba, organista competente, nas novenas da Conceição e do Natal, na Angra de 1963, sem esquecer a primeira visita pastoral. Uma visita tão atribulada que deixou sua reverendíssima desorientado, borrando-se todo de tinta, quando tombava o seu juízo negativo no livro de tombo da paróquia; na falta de acólitos qualificados, desolado, dizia: quem pega aqui nas pontas da capa? Uma tragédia!..
- Aos teatros e aos ranchos de Natal, do Galeão dos “amaros”, "azevedos", “correias” e “tarimbas”, sob os olhares "atentos e inquisitórios" do Monsenhor e do Reitor; ao primeiro rancho de Natal que o condutor José Devesas acidentou na valeta da estrada perto do cemitério da Piedade por altas horas da noite, e que o companheiro de oficio, Miguel, dormindo na Ribeirinha e sabendo do acidente, socorreu prontamente; sem esquecer, de novo, a segunda visita pastoral, pelo porto da Prainha, em dia de muito inverno, na lancha Espalamaca, e.... outra tragédia: sem vinho nas galhetas! - o começo, da firme vontade, de não voltar a receber terceira visita pastoral; 
- À tropa da guerra e aos natais de Sanza Pombo; das viagens à fronteira, ao Quango, e ao Sul de Moçamedes e às bebedeiras de um coronel amargurado com a esposa, ausente em Lisboa, sofrendo de doença oncológica, com morte anunciada; ainda a Cabinda e ao Maiombe, com mais um Natal, onde se encontraram os guerrelheiros inimigos para os primeiros passos da paz há muito desejada;
- À terra-mãe, ilha negra, terra de baleeiros e pastores do santo abade Antão; terra do salvamento do Órgão de Tubos com o Padre Trigueiro; terra dos xilofones da Escola do Centeno, do Manuel Xavier, do Costa e da Regina do "Grupo de Cantares"; terra que foi do Padre Rogério e da fundação do Grupo Coral que sempre incentivou enquanto  viveu junto dele; terra que quase viu destruido o trabalho que deixou, por um estranho clérigo vindo de terras distantes; terra das novenas do Bom Jesus.
 - Aos natais de hoje e de sempre. Sempre com música. Porque o Natal tem sempre música, em qualquer lugar, com qualquer instrumento. Até com um simples assobio. No meio das maiores tormentas, tempestades, conflitos e guerras.
        No programa televisivo não houve, nem comédia, nem tragédia. Houve a representação, alusiva ao presépio, pelas crianças da freguesia, houve a poesia de Dias de Melo, dita por quem sabe, houve os testemunhos dos usos e costumes natalícios, e houve a música coral.
E também a presença do jovem pároco e coralista João Ponte, que, apesar dos compromissos já assumidos, soube conciliar, dando ali o seu testemunho, sem complexos nem tibiezas; um luzeiro, no meio do deserto negro da ilha; testemunho que mais reforçou a lembrança de outros tempos, e o contraste com os tempos presentes.
O programa “Atlântida” do Natal de 2011 deu-nos a lembrança, fugaz embora, da década de 50/60 do Seminário de Angra. Por isso, e sobretudo por isso, o programa, gravado na Ponta da Ilha foi, não só cultural mas também de sabor pastoral. Apesar de ter sido feito pela laicidade de hoje, acabou por ser um reflexo dos movimentos culturais da Angra eclesiástica do século passado.
 Foi um reflexo, sim, desses anos já longínquos. Reflexos que estão, infelizmente, a desaparecer, a desaparecer cada vez mais.
A verdade é que já não existe um Coelho de Sousa, um Antonino Tavares, um Edmundo Oliveira, um Piques Garcia e tantos outros – artistas da beleza e do belo.
 E ainda de outros, que, felizmente, fazem parte do nosso viver quotidiano, marcam a sua presença válida nos lugares onde residem. Exemplos: o José Rodrigues, o Armindo da Luz, o Artur Goulart, o António Cordeiro, o Avelino Soares, o Agostinho Quental, o António Moniz, o Manuel Azevedo, o José Gabriel, o Carlos Sousa, o António Dionísio, o J. Francisco Costa e outros que a memória já não abarca. Sentimos a sua presença, não só na feitura do programa, como, sobretudo, quando nos sentámos a vê-lo, no televisor. Esta crónica é dedicada a todos estes e outros que conhecemos, e com os quais tivemos a felicidade de conviver na santa casa mimosa de Deus.
Terão os responsáveis de hoje, visto este programa? Não sabemos. Se o viram, terão tirado as suas conclusões. Nós tiramos as nossas.
Foi um programa feito por laicos, que fazem o que podem e sabem, e para quem o fazem. Sabem o que o público deseja. Vivem dentro da comunidade e com ela se identificam. Porque se assim não fosse, nada teria acontecido. É importante acreditar, viver e sentir a comunidade.
Para os jovens de hoje, aconselho que alimentem o espírito, que dá vida e sabor aos dias da vida terrena. Boas Festas e Feliz Ano Novo.
        escrito na ortografia antiga
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domingo, 25 de dezembro de 2011

Pela noite de Natal....

“Pela noite de Natal, noite de tanta alegria, caminhando vai José, caminhando vai Maria” – palavras populares de uma quadra popular natalícia – acompanharam-me, na mente, durante o percurso das Lajes por São Roque até Ribeirinha.
        Para decorar o pensamento, mandei que o leitor de CDs da viatura fosse rodando o CD NATAL: “Partiram os três reis Magos”, “Natal… na província neva”, “Canção pastoril”, e outros mais. O destino era a missa do Galo, com passagem para uma visita familiar, no norte da ilha.
 Prosseguindo, e já na Terra Alta, as luzes da ilha Dragão, ao lado, bem vivas, pareciam luzes vindas do Oriente, anunciando qualquer coisa de inusitado. Acompanharam-me sempre até à gruta de Belém – a pequenina igreja da terra natal que o ministro Relvas quer varrer do mapa.
Contrariando costumes antigos, a “Missa do Galo” foi às 21 horas. O que não tem nada de extraordinário, já que noutras partes do mundo, o mesmo terá acontecido. A hora da meia-noite, na medida do tempo, não é a mesma no mundo inteiro. Os fusos horários assim o indicam. Por isso, essa coisa da missa da Meia-Noite varia de lugar para lugar. É uma questão puramente racional. Não tem nada de dogmático.
É, todavia, motivo de ironia, continuar a dizer “Missa da Meia” e mais ainda “Missa do Galo”, pelas 21 horas, já que não é fácil ouvir os galos a cantar àquela hora da noite, depois do sol poente. Se por ventura acontece, logo se dirá que é de mau agoiro. Galos, a cantar a esta hora? Mau agoiro, são desgraças de certeza!... Ouvi exclamar muitas vezes.
Da celebração litúrgica que ajudei a cantar, ficou-me a convicção de que ainda as pessoas aparecem. Não, todavia, com a intensidade dos tempos mais antigos. O que não é de estranhar, no contexto social dos tempos que vivemos.
        Se a “Missa do Galo” ou Missa da Meia-Noite é às 21 horas, é questão menor. As convicções suportam as pequenas mudanças. Porque é na convicção da mente e do coração que reside o suporte do acto de fé.
        No regresso, por outro caminho – longe dos olhares atentos e camuflados do “santo ofício”, de feminino vestida pelas costas do norte da ilha – o pensamento foi direito para o “canto” do galo, que terá de fazer-se ouvir pelos campos, hortas e quintas de toda a freguesia. Aqui, a questão já é outra, bem mais pertinente.
        Terá de fazer-se ouvir, o galo, na freguesia, que o ministro Relvas quer varrer do mapa. Aqui, outro galo canta. Canta de noite e de dia. Sempre.
        Pelo que a maneira de o fazer calar, não será fazer do mesmo a “consoada” da véspera da noite de Natal, mas fazer com que cante no poleiro, e só no poleiro da freguesia, e de pescoço bem levantado, para ser ouvido em TODA a freguesia.
 Alegre, todas as manhãs, avisando cada freguês que são horas de levantar e ir para a terra, lavrar e tratar dos animais. Lavrar e tratar da freguesia que tem dono.
        “Pela noite de Natal”…, o pensamento foi ao encontro do Presépio e da Freguesia. O Presépio tem futuro, enquanto houver crentes que livremente o fazem e alindam; a Freguesia obrigatoriamente terá de ter futuro pelas mãos dos fregueses que a justificam e do governo que suportam.
        No percurso, o CD NATAL rodou algumas três vezes. Num percurso amaciado, com música macia e suave, que distrai e ajuda o pensamento. Numa noite estrelada, como não já via há muito. Boas Festas.
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            escrito na ortografia antiga
       
       




       

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

CD NATAL, agora editado

O Grupo Coral das Lajes percorreu quase toda a música tradicional açoriana, penetrou na música religiosa e sacra e nos últimos tempos abordou a música religiosa popular: do Espírito Santo e do Natal. O círculo musical ficou assim completo. Trilhado pela primeira vez, um pouco pela rama, entenda-se, pois ainda há muito por trilhar e fazer.
Deste último, de que hoje nos ocupamos, digo que se trata de uma pequena colecção de cânticos que fizeram parte das Cantatas de Natal dos anos anteriores.
 De todos eles, e são muitos, escolhemos 10 temas.
Numa abordagem simples, começaria por destacar o contributo do Prof. Manuel Francisco Costa que interpreta, como solista, três temas.
      - Noite de paz, do compositor Carlos Adolfo Adam, Natal dos simples de Zeca Afonso, e Natal… na província neva; este último com música do picoense Fernando Machado Soares, ilustre magistrado, sobejamente conhecido e apreciado pelas suas interpretações das canções de Coimbra, e letra de Fernando Pessoa.
         
         - Natal de Elvas, na voz solista de Lurdes Melo, – um bela canção popular, com letra e música da nosso Alentejo rural, superiormente harmonizada por Mário Sampayo Ribeiro;

Fazem parte da colecção, ainda:
- Partiram os três reis magos, uma melodia popular dos Açores relacionada com os Reis Magos;
- Canção pastoril – no duo Hélder Fernandes e Francisco José Soares - um tema popular açoriano, lembrando a gruta de abrigo de pastores, do interior da ilha, assemelhando-a à gruta dos pastores de Belém.
- Nina-nanatambém popular açoriano do nosso berço de criança, aqui feito berço de Belém.
- Noite Feliz, tradicionalmente conhecido, talvez o cântico mais conhecido em todo o mundo;
- Ave Maria – tema clássico de sabor palestriniano do compositor alemão F. Xaver Witt que viveu entre 1834 e 1888.
E, finalmente:
- Em Belém, tradicional inglês, numa adaptação dos franciscanos de Gondomar. “Natal, Natal, gloria a Deus no céu, Paz entre os homens, vitória de Deus”.

O nosso comentário final:
O Natal é o tempo da música por excelência. Não há Natal sem música. Os anjos foram os primeiros a cantar Glória a Deus nas Alturas. Desde então nunca mais se calaram as vozes. Aqui estão as nossas, desta Ilha. Uma afirmação cultural do tempo em que vivemos.
O Grupo Coral já vai em idade avançada. Ao longo de toda ela e nas gravações que já fez – e foram algumas – todas foram feitas pelo técnico da RDP – Açores, senhor Raul Resendes.
A RTP – Açores, mais uma vez, veio até nós fazer o programa ATLÂNTIDA, levando consigo as gravações deste CD. Será mais um documento para recordar. Muito agradecemos essa disponibilidade.
E muito agradecemos à Direcção Regional da Cultura/ Presidência do Governo, e à Câmara Municipal das Lajes todo o apoio prometido.
Louvamos todos os cantores que participaram. Louvamos os tocadores, os melhores que temos na ilha, sem ofensa para ninguém.
 A semente está lançada. Se foi possível este percurso, que já é longo, outros também serão possíveis.
Com gosto, paciência e persistência, tudo é possível. Os caminhos estão sempre abertos para os que vem depois. São os votos que aqui deixamos expressos.
Continuação de Boas Festas e um Feliz Ano Novo.
Manuel Emílio Porto
altodoscedros.blogspot.com
        escrito na ortografia antiga

domingo, 18 de dezembro de 2011

Natal de tempos idos....

Já eram quatro horas da tarde. O sol declinava bem, estava bom tempo, o mar não se mexia e a maré estava quase toda descarnada. Um simples olhar pelas encostas da rocha da Terra Alta e do Baixio, antevia uma boa maré de lapas.
        Era 24 de Dezembro. A mulher tinha andado todo o dia a mexer em farinha para cozer uns pães de milho para a semana seguinte. Nada melhor do que tentar apanhar umas lapas para matar a fome, logo à noite, antes de deitar. Se assim pensou, melhor o fez.
        Antes passou pela adega da Ponta Gorda, levando consigo um pequeno saco e um faqueiro que lá tinha. Pôs-se a caminho pela costa abaixo e foi até ao “Pacinho”.
        A costa estava limpa de “escalhos” de baleia. Na semana anterior o mar bravo fez limpeza profunda e não havia notícias de se terem apanhado baleias.
        O tempo que gastou não foi muito. O suficiente para conseguir apanhar um bom prato de lapas. Elas estavam mesmo a “modos de semear”. Eram mansas e havia muitas.
        Contente e com o saco cheio, regressou a casa. Já era escuro, e a mulher andava preocupada com a demora.
        - Só agora? Não sabias que sou preocupada quando não vens com dia?
        - Sabia, sim. Mas, eu vi uma maré de lapas como já não vejo há muito tempo. E pensei cá comigo: e se fosse apanhar um prato de lapas para cearmos, não seria uma boa ideia? Se bem o pensei, assim o fiz. Aqui te trago para a nossa ceia de hoje.
        Os sinos da Igreja haviam tocado Trindades com repenico no fim, dando a entender que naquela noite era a noite de Natal. Maria tinha entendido esse sinal do sino e disse ao marido que não respondeu.
        Acenderam a candeia de azeite, sentaram-se à mesa. Sobre a mesa as lapas e o pão ainda morno, cozido durante aquela tarde.
        - Estas lapas consolam, disse o Manuel.
        - São bem saborosas, respondeu a Maria.
        - Mais saborosas do que o frango do ano passado, lembras-te? Retorquiu o Manuel.
        - Lembro, sim, também era véspera de Natal. Afinal, a véspera de Natal é igual a tantas outras. A nós, que ainda há poucos anos nos casámos, não chegou a dita de melhores dias. Temos que poupar…
        … E depois … tenho ali umas galinhas que andam a pôr, não queria matar nenhuma agora, sempre vão dando uns ovos que ultimamente nos têm valido.
        Na amassaria havia um jarro com vinho que havia trazido da adega. Beberam cada um seu copo de vinho. O Manuel ainda alimentou uma conversa sobre os dois bois que estavam na atafona. Por lá passou, deitou nas manjedouras uns pastos e voltou.
        Ainda leu o Seringador para o ano seguinte. Riram com as anedotas, o juízo do ano da Tia Brígida e outras histórias. Apagaram a candeia de azeite. A lua via-se pela janela e era ela que alumiava os contornos do quarto.
        Deitados, ainda conversaram um pouco. Só conseguiram pegar no sono pela madrugada. Na cama, olhando o tecto e vislumbrando alguma estrela da noite por entre um ou outro buraco do forro, os pensamentos andavam longe.
        Entretanto, o sino tocou por três vezes e a seguir repenicou. Maria, que tinha passado por uma sonolência, disse baixinho:
        - “Já estão a alevantar a Deus”!
        - Será que vai ser sempre assim? Disse o Manuel que também tinha ouvido o sino.
        - A Maria, sentindo qualquer coisa a mexer-se no ventre, exclamou: Se Deus nos der vida e saúde, havemos de ir todos os três, daqui a um ano, à Missa do Galo.
        - E uma consoada melhorada, te garanto eu.
        Decorria o ano de 1937.
       

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Angola 69/71 O regresso de há 40 anos Texto revisto, feito postal de Boas Festas

 Outubro de 1969
Caros “Crocodilos”
Os tempos, à data do embarque – 20 de Outubro de 69 – já eram muito conturbados, ameaçadores de futuros incertos, tempos propícios a fugas para outros países, na busca de uma vida estável que a Pátria não conseguia dar. Muitas deserções aconteceram. O país conheceu uma sangria acentuada. O ambiente da terra-mãe era de frustração. Apesar de tudo isso, e da proximidade do Natal, foram para a guerra.
        Por outro lado, é bom de ver, também era de esperança. Movimentos inconformados já se faziam sentir. A esperança minava as ruas das cidades e os pátios das universidades. A mesma esperança, feita companheira de viagem, embarcou no Niassa e não esqueceu o Natal. Foi na praça, em frente à casa do Comando, no centro da Vila, do Norte de Angola. O melhor Natal, segundo alguns.
        Os jovens de ontem e homens maduros de hoje – a idade não perdoa – tiveram a oportunidade de sentir e viver os movimentos da história recente. Foram protagonistas dos maus momentos, que geralmente antecedem os horizontes de luz e de esperança. Continuam protagonistas dos desejos ainda não consumados. Parece que a História é assim feita – de utopias e de frustrações.
Obedientes ao poder politico-castrense, sem nunca esquecer a retaguarda, coube-lhes percorrer Angola. Conformados, partilhando a mesma sorte, foram sabendo das notícias, foram sabendo e acompanhando o desenrolar dos governos de então.
 E foram confrontando, comparando, tentando encontrar uma explicação que só veio mais tarde, quando cada um, já se sentia aliviado do pesadelo dos anos vividos em terras africanas. Terras lindas, cativantes, mas que, muito dificilmente, poderiam continuar a ser nossas.
        Os anos que por lá passaram – hoje parece evidente – foram tempos de defesa da própria vida, e tempos de alimentar a confiança no futuro. O objectivo era o regresso.
 Raro o soldado que diariamente não punha uma cruzinha no dia do mês e ano, no calendário, pendurado na camarata, “bem ilustrado e de rosas colorido”, para dizer assim em tom de exclamação: “mais um dia para trás”, “menos um dia que falta”!
O companheiro das horas mortas – o gravador e leitor de cassetes – reproduzia músicas de Zeca Afonso, Adriano, Fanhais e outros. Música de vanguarda que alimentava a esperança.
“Pergunto ao vento que passa //Por notícias do meu país”.
“Há sempre alguém que resiste //Há sempre alguém que diz não”.
“Já lá vai Pedro Soldado //Num barco da nossa armada”.
“O soldadinho não volta //Do outro lado do mar”.
As cantigas matavam a saudade e davam ânimo. E muitas do gravador passaram para alguns, que não se escondiam para as cantar, dando origem ao conjunto “Os Crocodilos do Quango”, com direito a hino, o hino do conjunto, depois hino do Batalhão, cuja letra aqui se transcreve:
Sozinhos e desesperados
Mas sempre fiéis soldados
Não viram costas ao perigo;
Fazem frente ao inimigo
Nas horas tristes da vida
É Deus quem lhes dá guarida.
Esteja sol ou chuva
Nunca faltam ao dever;
Há momentos de amargura
Por causa da vida dura,
Nas horas tristes que há
É Deus quem os salvará.
Na mata o esforço é forte
Quantas vezes frente à morte
Nunca há uma certeza
É uma vida de tristeza
Nas horas tristes então
É Deus que lhes dá a mão.
Coro:
São crocodilos,
São do Quango
São de Portugal também;
É o Batalhão
Que é sempre então
“O mais alto e mais além”.
        Dezembro de 71
E o regresso chegou. Numa caravela de luxo – o Vera Cruz, a 7 de Dezembro, na véspera da Imaculada, Padroeira de Portugal.
 Nas Caldas da Rainha, a 5 de Novembro de 2011 – 40 anos depois, foi a comemoração dessa data. Um convívio, não de saudade, mas de emoção sadia, que brotou da mesma vivência e da mesma entreajuda. As dificuldades – quando sinceras e verdadeiramente sentidas – não esquecem.
Receberam parabéns os que lideraram o encontro. Libertos das altas patentes político-militares, das mitras de ontem e de hoje, e dos barretes recentemente restaurados, coube-lhes a iniciativa. Livremente assumida e concordante. Sem vigilâncias do santo ofício, nem patrulhamentos castrenses.
À mesa reunidos, com rancho melhorado, sem arroz “aos saltinhos”, os ânimos foram de alegria, por mais este encontro de sã camaradagem.
Um silêncio e uma oração para os que tombaram fizeram parte da ementa. E uma palavra solidária, para quantos, deste Batalhão e de todos os Batalhões, regressaram estropiados, e ainda hoje sofrem os efeitos da guerra.
        Angola já está muito longe. Mas é bom recordar, enquanto houver um sobrevivente. É uma herança sem herdeiros.
 No livro “Angola 69/71”, editado no tempo do regresso, o capelão de então escreveu: “O teu novo campo de batalha é bem mais difícil do que este que agora termina. Não cruzes os braços. Atira-te com valentia e vencerás. Portugal confia em ti e Deus nunca te desampara”.
O capelão, e todos os que tiveram no convívio das Caldas, são hoje cidadãos e cristãos de uma Pátria, cristianizada pelos antepassados. Os votos de então continuam válidos.
Há 42 anos foi o Natal da Guerra, logo após a chegada ao norte de Angola. O regresso foi hoje, já passou. Daqui a dias será o Natal na Família. Um Feliz Natal para todos e até qualquer dia.
 Caldas da Rainha, 5 de Novembro de 2011, no encontro dos homens do B. CAÇ. 2889 – 40 anos depois do regresso.
Manuel Emílio Porto