quarta-feira, 1 de junho de 2011

Missa pela Televisão

Seguimos – por hábito, por defeito, talvez por curiosidade – as celebrações festivas que a Televisão nos mostra. Quer seja ao domingo, quer seja noutra festividade mais importante.
Cedo percebi e entendi as intenções do Concílio Vaticano II, nos anos 60 do século passado, que apontavam para o acto litúrgico como sendo uma acção colectiva, exigindo a participação integral de todos os intervenientes – presidente, acólitos, grupo dos cantores, assembleia.
A partir de então, os que conheci, e foram muitos, entenderam que uma celebração festiva, mais do que qualquer outra, exigiria a participação de todos. Embora se tivesse consciência das dificuldades em atingir esse desiderato, sobretudo quando se tratasse de multidões, a verdade é que tudo apontava nesse sentido.
Hoje, confesso que nos Açores os tempos melhores foram os primeiros. Muito trabalho foi feito, e bem feito, apesar de alguns desvios menores. Todavia, a partir dos primeiros anos deste novo milénio, tudo começou a ser relegado para costumes há muito recuados no tempo. Parece que perpassa pela Igreja um saudosismo doentio que faz pena.
Tomo por tema concreto, a celebração festiva da Missa de festa de Santo Cristo presidida pelo Cardeal Levada, Ministro do Santo Ofício. Segui atentamente todo o desenrolar das cerimónias no altar. Da minha observação deixo os comentários seguintes.
Quanto aos ritos e à sua lisura, foram certos, como num relógio. Isso terá contentado muita gente. Mas a verdade, porém, é que tudo pareceu demasiado formal, como se tudo fosse feito nos tempos do latim e versus deum. Apenas em dois pormenores houve a diferença: o vernáculo e o versus populi. No restante, foi uma celebração fria e intelectualizada, algo mecânica, só para os que estavam à volta do altar. A alma e o sentir dos participantes, sobretudo da assembleia, ficaram-se pelo silêncio em atitude expectante.
O Grupo Coral fez o seu desempenho, e bom desempenho. Preocupado com a execução perfeita dos momentos que lhe competia, de ligação ao altar, e totalmente desligado da Assembleia, espalhada pelo campo de São Francisco. A chuva até obrigou os instrumentistas a abandonarem os lugares que ocupavam.
Como se sabe – é das normas – todos os refrães, as respostas e o Pai-Nosso de uma celebração festiva, pertencem à Assembleia. E para este caso concreto, nada foi preparado. Faltou preparação. Faltou o condutor da Assembleia.
À escola dos cantores competem os temas de maior dificuldade; aos povos as restantes. À escola dos cantores compete usar a polifonia; aos povos o uníssono. E para completar o que digo, lembro somente o que Bento XVI recordou há dias, por ocasião dos 100 anos do Pontifício Instituto de Música Sacra: o sujeito da liturgia é a Igreja e não a pessoa ou grupo que celebra a liturgia.
E nada mais adianto, pois, sou apenas um observador. Compete aos responsáveis zelar pelo bom e exemplar desempenho da liturgia.
Termino, dizendo que uma celebração desta natureza, transmitida pela Televisão, deve ter também uma finalidade pedagógica – ensinar como se faz, escola viva, a melhor de todas as escolas.
Uma celebração sem alma é uma celebração de mortos, um espectáculo puramente material. Sem alma, a mensagem fica-se pelo rito, o que é francamente muito pouco. Quem quiser entender, que entenda. E, por muito que custe, nesta matéria, muito há que aprender de outras confissões cristãs. Basta olhar e ver como fazem.
Manuel Emílio Porto (altodoscedros.blogspot.com)

terça-feira, 31 de maio de 2011

Loucura do sagrado

Todos se lembram de D. Helder Câmara, o Bispo santo do Brasil. Aqui deixamos um poema, muito original dedicado aos que comandam a Igreja de Roma.
Sonhei que o Papa enlouquecia
e ele mesmo ateava fogo
ao Vaticano e à Basílica de S Pedro...
Loucura sagrada,
porque Deus atiçava o fogo
que os bombeiros,
em vão, tentavam extinguir.
O Papa, louco,
saía pelas ruas de Roma,
dizendo adeus aos Embaixadores
credenciados junto a ele;
jogando a tiara no Tibre;
espalhando pelos pobres
o dinheiro todo
do Banco do Vaticano...
Que vergonha para os Cristãos!
Para que um Papa
viva o Evangelho,
temos que imaginá-lo
Em plena loucura!...

Dom Helder – 4/5.5. 1974

terça-feira, 24 de maio de 2011

A Igreja ainda tem salvação?

Com este título publicou o conhecido e conceituado teólogo português Anselmo Borges um artigo de opinião no Jornal de Notícias de 21 de Maio corrente. Pela sua coragem aqui se transcreve.
"Não falta quem se irrite com o simples nome de Hans Küng, acusando-o inclusivamente de ressentido: não teria ainda perdoado a João Paulo II nem a Bento XVI a condenação. Mas quem tenha boa fé sabe que Küng se confessa convictamente cristão - para ele, ser cristão é ter Jesus Cristo como determinante na vida e na morte - e não pode ignorar o seu contributo incalculável para o encontro da fé com o mundo moderno e pós-moderno e um ethos global. Leia-se, por exemplo, a sua recente obra Was ich glaube, várias vezes aqui citada e agora traduzida para espanhol - Lo que yo creo -, onde, de modo profundo e pessoal, responde às perguntas essenciais: em que posso acreditar?, em que posso confiar?, em que posso esperar?, como posso configurar a minha vida?

Foi por imperativo de consciência que escreveu o livro que acaba de ser publicado: Ist die Kirche noch zu retten? (A Igreja ainda tem salvação?). "Preferiria não ter escrito este livro. Não é agradável dirigir à Igreja, que foi e é a minha, uma publicação tão crítica", mas, "na presente situação, o silêncio seria irresponsável".

De que sofre a Igreja? A Igreja católica, a maior, a mais poderosa, a mais internacional Igreja, essa grande comunidade de fé, está "realmente doente", "sofre do sistema romano de poder", que se caracteriza pelo monopólio da verdade, pelo juridicismo e clericalismo, pelo medo do sexo e da mulher, pela violência espiritual. Que propõe Küng?

É preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. De facto, em síntese, a Igreja é a comunidade dos que acreditam em Cristo: "A comunidade dos que se entregaram a Jesus Cristo e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível, se disser a mensagem cristã não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus. Toda a sua credibilidade depende da fidelidade a Jesus Cristo." Como procederia Jesus nas actuais situações, quando pensamos no modo como agiu? Seria contra o preservativo, os anticonceptivos, excluiria as mulheres, obrigaria ao celibato, proibiria a comunhão aos recasados? Que diria sobre as relações sexuais antes do casamento? Como procederia em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso?

A Igreja não pode entender-se como um aparelho de poder ou uma empresa religiosa, mas como povo de Deus e comunidade do Espírito nos diferentes lugares e no mundo. O papado não tem que desaparecer, mas o Papa não pode ser visto como "um autocrata espiritual", antes como o bispo que tem o primado pastoral, vinculado colegialmente com os outros bispos.

A Igreja, ao mesmo tempo que tem de fortalecer as suas funções nucleares - oferecer aos homens e mulheres de hoje a mensagem cristã, de modo compreensível, sem arcaísmos nem dogmatismos escolásticos, e celebrar os sacramentos -, deve assumir as suas responsabilidades sociais, apresentando, sem partidarismos, à sociedade opções fundamentais, orientações para um futuro melhor.

Não se trata de acabar com a Cúria Romana, mas de reformá-la segundo o Evangelho. Essa reforma implica humildade evangélica (renúncia a títulos como: Monsignori, Excelências, Reverências, Eminências...), simplicidade evangélica, fraternidade evangélica, liberdade evangélica. E é necessário mais pessoal profissional, acabando com o favoritismo. De facto esta Igreja é altamente hierarquizada e ao mesmo tempo caótica. Quem manda no Vaticano? "Conselheiros independentes haverá poucos."

Mais: precisa-se de transparência nas finanças da Igreja; deve-se acabar com a Inquisição, não bastando reformá-la, e eliminar todas as formas de repressão; não é suficiente melhorar o Direito eclesiástico, que precisa de uma reforma de base; deve-se permitir o casamento dos padres e dos bispos, abrir às mulheres todos os cargos da Igreja, incluir a participação do clero e dos leigos na eleição dos bispos; não se pode continuar a vedar a Eucaristia a católicos e protestantes; é preciso promover a compreensão ecuménica e o trabalho em conjunto."

sábado, 7 de maio de 2011

Uma semana de cultura intensa

Intensa porque virada para dentro. Para mais tarde apreciar e recordar. Sobretudo recordar.
Com efeito, de um a sete do corrente mês de Maio – a semana que passou – o Grupo Coral das Lajes do Pico com a totalidade dos seus actuais executantes, cerca de 50, e durante duas horas por dia e ao serão, esteve concentrado na execução, o mais perfeitamente possível, de temas musicais do seu repertório. Foram gravados temas relacionados com a cultura religiosa popular. Do Espírito Santo e do Natal.
        O trabalho realizado ficará registado nos arquivos da RDP-Açores, que depois cederá ao Grupo Coral, a fim de o editar em CD. Nesta fase, assim foi acordado.
        Os temas gravados serão agora objecto de apreciação, selecção e organização, com vista à sua publicação em CD.
        Foi uma semana trabalhosa e extenuante da história do Grupo Coral, a juntar às outras quatro que tem no seu currículo – Música Popular Açoriana, Montanha do Meu Destino, Música em Tempo de Festa e participação em Os Melhores Coros Amadores da Região.
Foi uma semana de cultura intensa que serviu também para o Grupo se avaliar a si próprio. O que ficou registado será, pois, no futuro, apreciado e comentado. Primeiro pelos seus executantes, e depois por outros que tiverem essa oportunidade. Em todos os casos, virá sempre ao de cima a sua competência.
Com esta semana de trabalho – mesmo que a selecção que agora vai ser feita não tiver o volume que inicialmente se desejaria – o Grupo Coral deu mais um contributo à cultura musical açoriana. Dentro das suas limitações, que as conhece e reconhece, ficaram a alma, o gosto, o empenho de cantar a música que temos. Foi uma semana de presenças constantes, quase sem excepção. Sem arredar pé. Um bom sinal para qualquer grupo.
Salientamos que, excepto na participação em Os Melhores Coros Amadores da Região, as gravações foram novamente feitas pelo técnico Raul Resendes, motivo que muito contribuiu para a excelente receptividade de quantos viveram os serões desta semana. A sua experiência e competência são sobejamente reconhecidas. Estamos gratos por isso.
Esta primeira fase – a gravação de temas musicais seleccionados – teve o apoio da Câmara Municipal das Lajes do Pico, RDP – Açores e Igreja Matriz, permitindo esta última que os trabalhos se realizassem dentro do templo. Um agradecimento a todos, extensivo ao posto da PSP das Lajes pelo controle da circulação automóvel à volta da Igreja Matriz. Foram sinais de que estão atentos às iniciativas particulares que acontecem, que as valorizam, respeitam e apoiam.
Tendo em conta que os temas gravados, na sua totalidade, são oriundos da cultura religiosa do meio açoriano, é de crer que o trabalho desta semana tenha sido também um contributo à consolidação da fé que se pratica. Neste sentido, tenha-se em atenção os apelos de Bento XVI, quando aponta para a valorização da cultura cristã, como meio de salvaguardar os valores cristãos herdados dos tempos antigos.
Os passos seguintes serão os apoios necessários para a sua publicação. Serão solicitados ao Governo, às Câmaras Municipais, às juntas de Freguesia, às entidades particulares e também individuais. Da sua ajuda dependerá a brevidade ou demora da sua publicação.
Para conhecimento do público, aqui se indicam os temas relativos ao Espírito Santo:
Invocação – Tomás Borba                                            
Hino do Espírito Santo – Jacinto Inácio Cabral
Adoremos com afectos… As vossas glórias – Popular
Voz dos meus humildes cantos – J.S.Bach
Estas mesas… – Popular de São Roque do Pico
Recolhei-vos, pomba branca… – Ribeirinha do Pico
O Divino Espírito Santo … – São Miguel
Pastores, à serra… – Ribeirinha do Pico
Ó Senhor Espírito Santo… – Lajes do Pico
Bateram Trindades – Tomás Borba
Hino da Região – Joaquim Lima/Natália Correia
Este último tema é aqui incluído porque a Segunda- Feira do Espírito Santo é o dia da Autonomia. Assim sendo, o Hino da Região acabou por ficar consagrado dentro dos festejos tradicionais em louvor da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade – o Espírito Santo.
Resta aguardar que, depois da selecção que será feita, as demoras na edição gráfica e mormente nos apoios solicitados não se prolonguem demasiado. Se assim for, poderá o seu aparecimento acontecer já por altura das próximas festas maiores do Concelho das Lajes, ou seja, na última semana de Agosto.
Da minha parte só me resta dizer que enquanto tiver capacidade – que já vai acentuadamente faltando – continuaremos a cantar.
Não esqueçam marcar presença no dia 29 de Maio no salão da Irmandade do Espírito Santo da Companhia de Cima, para celebrar, com os irmãos daquela sociedade, os 100 anos daquela Irmandade.
 Até lá, continuação de Boas Festas do Espírito Santo para todos.

Manuel Emílio Porto (altodoscedros.blogspot.com)

       
       

domingo, 1 de maio de 2011

MIradouro da TERRA ALTA

Mais um apontamento sobre o Miradouro da Terra Alta. Não para revelar nada de novo. Mas sim assinalar o tempo dos acabamentos finais. Possivelmente, quando este apontamento aparecer, já terá sido inaugurado, ou quase. Assim parece.
        Já há dias que por lá não passava. Aconteceu nos finais do mês de Abril. É lugar de afeição, pois por lá muito andei, nos tempos em que Nosso Senhor andava pelo mundo, para usar a expressão comum dos tempos difíceis do passado longínquo, rumo aos matos do Portal da Serra ou do Cabeço das Cabras, bem como à freguesia vizinha de Santo Amaro.
Fiquei agradado com todo o conjunto que envolve o núcleo principal do Miradouro. As ligações com os caminhos antigos para poente e para nascente foram a melhor solução.
Com o Miradouro da Terra Alta, faria a seguinte acomodação: como em imponente Catedral, altivo e altaneiro lá ficou o púlpito sobre o oceano e São Jorge, as falésias e ravinas sobre o mar do Baixio, elementos atentos aos olhares extasiados dos humanos, declamando poemas de amor e admiração. Ó belo oceano, que a todos nos beijas e abraças….desfaz as brumas que ofuscam….deixa ver o horizonte dos sonhos que trago comigo.
Depois deste “arrojo poético”, cujo autor desconheço, não deixo de lembrar a estória contada por antigos: o “Ti José da Pedreira”, já velhinho, ali foi um certo dia. Quando avistou São Roque e o Cais do Pico ao longe, exclamou: “sempre muito grande é o mundo”!
A escadaria fica para a história do Miradouro, o seu primeiro e principal acesso. E quanto ao púlpito sobre o grande precipício, parece-nos ter havido pouca ousadia. Um pouco mais de largura no extremo poderia ter acontecido. As consolidações parecem-nos correctas e teriam suportado mais espaço.
        Todavia, entre o óptimo e o bom – o diabo que escolha, costuma dizer-se – há que fazer uma. E qualquer que fosse ela seria legítima.
        Os reparos maiores que fazemos apontam para os espaços de estacionamento. Parecem-nos exíguos, pois não serão apenas os veículos ligeiros que por ali vão estacionar, mas também os colectivos. E assim sendo, outras larguras e comprimentos poderiam ter sido projectadas.
        No conjunto de toda a obra, acho que vale a pena a visita. Uma visita com dois objectivos: observar a paisagem que é deslumbrante, e toda a obra que envolve o Miradouro. Para além da paisagem em si – que é o principal – há que apreciar todo o seu enquadramento, com as duas entradas, uma pelo poente e outra pelo nascente. É uma obra que dignifica a autoridade regional. E que vem melhorar aquele local que a natureza nos deixou.
        (E, para as autoridades regionais e outros interessados, nas coisas que a natureza oferece, faço o seguinte convite: desçam o Ramal da Terra Alta da Ribeirinha, e, mais ou menos a meio, virem à esquerda, (com sinal de trilho já assinalado), caminhem cerca de um quilómetro, para verem um outro Miradouro, não menos espectacular – o Miradouro do Alto dos Cedros. Um segredo que, felizmente, já anda a ser descoberto).
Como epílogo final, acrescentaria: Terra Alta e Alto dos Cedros são dois miradouros de grande beleza, duas catedrais que importa valorizar. O primeiro acabado de vestir as vestes ornamentais de bem receber; o segundo ainda de vestes gentílicas, como a natureza fez. Dois irmãos, muito próximos, que não se vêem um ao outro. Cada qual espera uma visita.
Manuel Emílio Porto (altodoscedros.blogspot.com)

domingo, 24 de abril de 2011

Padre Dr. Edmundo Machado Oliveira

Em boa hora, na Ilha de São Miguel, e no século passado, um grupo de antigos alunos do Padre Dr. Edmundo Oliveira, resolveu pôr de pé uma Associação Musical, dando-lhe o nome do seu mestre e professor. Já lá vão 25 anos de existência, com bons desempenhos que agora se recordam e festivamente se celebram.
        Alertado para este acontecimento, entendi fazer uma referência especial ao homem que foi o Padre Dr. Edmundo Machado Oliveira, figura central daquela associação – a quem a Igreja Açoriana muito deve – e bem assim endereçar ao Orfeon que tem o seu nome, sinceros votos de bons desempenhos, exemplares exibições, em favor da cultura musical em coro.
        Com efeito, Edmundo Oliveira foi um pedagogo, de sabedoria estimulante e contagiante. Muitos, como eu, assim o atestam. Sobretudo, a forma de transmitir os sentimentos artísticos que envolviam toda a sua alma.
         Edmundo Oliveira sabia como fazer da música uma arte bela. De como a alma humana se revela, se abre aos outros, e entra docemente no mais íntimo do ser humano.
        Uma das funções da música “edmundiana” era a liturgia da Igreja Católica. Formado nas escolas de Roma, bem junto do Vaticano, ainda tocado pela fama de Lourenço Perosi, e contemporâneo de Domenico Bartolucci e outros mestres da Capela Sistina, absorveu e assimilou de perto o que de melhor se fazia e exigia da arte musical, na liturgia. Quantas vezes, nos dizia, quando tinha que repetir um tema: “ainda não está bom para ir ver a Deus”. E acrescentava: “nada de ruídos”. Gracejando apontava: “xô moscas”! Como se os nossos desafinos fossem zumbidos a manchar a beleza do canto.
        Os ensaios que fazia, preparatórios para as festas religiosas do Seminário e da Sé de Angra, eram sempre precedidos dos apelos à concentração, e à máxima atenção, não só ao texto musical e ao escrito, como à condução do director. Era a totalidade da alma numa espécie de concentração mística.
        Cultivava o bom desempenho da Capela, tendo em conta o seu contributo à liturgia, e como elemento educativo e pedagógico para as outras capelas açorianas, mais tarde dirigidas por alunos seus que conduzia. Ainda hoje recordo as suas palavras de estímulo, quando chegando atrasado, e, não querendo entrar no decorrer da execução, escutou fora da porta o canto do glória da Missa d’Uomo de Perosi. “Perfeiro, rapaz, gostei!”
        Uma outra vertente do Dr. Edmundo Oliveira foi a forma cativante como também enfrentava a música coral das mais variadas proveniências, fossem elas eruditas, clássicas, religiosas ou profanas.
        Edmundo Oliveira também deixou algumas obras musicais. Umas sacras, outras profanas. Das primeiras guardei algumas. Das outras nada sei. Há uma peça – uma Balada, do poeta picoense Bernardo Maciel – que ele musicou, já eu andava por outras terras, e que levou numa das festas de São Tomás de Aquino. No fim da execução, Monsenhor Pereira da Silva, levantando-se do seu lugar de honra, perante toda a plateia que enchia o velho salão do Seminário, foi felicitar o maestro Edmundo Oliveira, dando-lhe um grande abraço. Penso que a partitura dessa Balada – já caracterizada de belos efeitos inarmónicos – se encontra nos arquivos do Orfeão aniversariante.
        Hoje, já em adiantado tempo do novo milénio, ressalta-nos, de imediato, o quão distante estamos dos tempos de vida do grande mestre. Não sou saudosista desses tempos, mas lastimo a mediocridade que vemos por aí, sobretudo nas áreas que ele mais amava e cultivava com esmero – a música sacra, a música de ir ver a Deus, como ele dizia.
        Nesta data, é de registar a continuidade deste homem, pelas mãos dos seus antigos alunos e outros que a eles se juntaram. Lembro os primeiros – o Dr. José Rodrigues e o Padre José Gomes, já falecido e de feliz memória – que logo nos primeiros anos nos brindaram com temas provenientes do seu fundador.
O Orfeão Edmundo Oliveira passou por aqui numa das festas de Lurdes. Chegamos a retribuir essa visita. Mas os Açores não são nada benignos para as aproximações entre grupos numerosos. As deslocações são dispendiosas, e as crises também nos afectam. Por isso, apenas vamos sabendo da sua continuidade e desempenho por alguns amigos e pouco mais.
        Nesta data festiva, deixo aqui, uma palavra de felicitação a quantos dão vida e arte ao Orfeão Edmundo Oliveira. Bons desempenhos, e Ad multos annos.
Manuel Emílio Porto (altodoscedros.blogspot.com)

domingo, 17 de abril de 2011

Santo, Santo, Santo...

É o Senhor Deus do universo. Assim dizemos, louvando e bendizendo. Alguns diariamente o fazem. Outros, aos domingos, outros, uma vez por outra. Outros, nem se lembram disso.
        Nestes dias tudo nos fala da santidade. Não há órgão de comunicação social que não fale da santidade do papa João Paulo II. Toda a sua vida foi revelada, explicada, comentada nos jornais e revistas, rádios e estações televisivas. Todos estarão virados para a grande simpatia que o mundo teve por aquele homem que veio da Polónia.
 Foi o homem forte – quebra-gelos da guerra-fria. Depois, eleito papa, arredou da frente – para usar uma expressão muito nossa – retirou as barreiras e meteu-se por todo o mundo: “ide por todo o mundo, anunciai a Boa a Nova a toda a criatura”. Levou à letra as palavras do Mestre.
        O resultado foi uma onda de simpatia pelo papa, como nunca se tinha visto. Os banhos de multidão multiplicaram-se pelos quatro cantos da terra. Tudo parecia que a barca de Pedro estava cada vez mais firme e viva no mar encapelado das nações, algumas em conflito permanente, outras envolvidas em ameaças sectárias de nacionalismos, confissões exacerbadas e fundamentalistas.
        O resultado foi uma aclamação enorme de santidade súbita logo após a sua morte. No dia 1 de Maio próximo, será proclamado Beato.
        Ninguém sabe nem arrisca das consequências seguintes. O que irá acontecer, seja no dia a dia dos crentes, nas suas práticas diárias, nas suas devoções ao beato João Paulo, seja no confronto com a História que não se paga facilmente. Neste momento, ninguém arrisca a dizer mais. O que virá depois será a confirmação da evidência ou não dos factos ocorridos, e as dúvidas que entretanto irão prevalecer.
        E é da História que agora importa estar atento. Com João Paulo II e depois com Bento XVI, as grandes manifestações que envolveram aquelas duas figuras não terão sido as sementes de frutos duradoiros, como muitos esperavam. Foram antes momentos grandes, de sensibilidades efémeras, e pouco mais. Depois da euforia, veio a acalmia e tudo voltou ao que era.
 João Paulo II, quando chegava a uma terra distante, descia da escada do avião e beijava a terra que pisava pela primeira vez. Bento XVI descia, e logo se colocava o tapete colorido de escarlate, para colocar os pés e prosseguir.
Estas duas imagens perduram no tempo. Dirão alguns que são estilos. Talvez. Um veio do meio operário comunista, o poder está no povo; o outro do meio imperial alemão, o poder vem de cima. Cada um é outro Cristo na terra. (Alter Cristus). Os afectos são legítimos, não se discutem.
A santidade é atributo de quem faz bem sem saber a quem. É o povo que decreta a santidade, pois é ele – o povo – que faz os seus santos.
Nesta onda de “santidades” – nunca se proclamaram tantos santos como nos últimos anos – a primeira questão que se levanta, são os outros que ficam à espera da sua vez. Que já existem, e também são aclamados pelo povo. O Vaticano sabe disso, mas entende que são outros os caminhos que levam à santidade, e que há motivos que não convém aprovar. Por isso a santidade é também motivada por afectos e desafectos dos homens do poder. Nem tudo são transparências.
Nas Américas centrais já se venera São Óscar Arnulfo Romero, Pastor e Mártir, martirizado em plena missa pelos inimigos do evangelho. O povo já se encarregou de lhe chamar santo, e assim vai praticando a sua fé. O mesmo por terras brasileiras com D. Hélder Câmara, defensor dos mais pobres e grande animador da não-violência.
O tempo presente parece ir mais no sentido do culto da personalidade – a papolatria. Uma linha medieva que renasce na defesa do castelo. Quando Roma fala, todos se calam. Os novos tempos, de frágeis aparências, assim o exigem. Mas o Povo de Deus, por sua vez, continua a louvar o Senhor que é três vezes santo. Os outros santos serão sempre condicionados pela própria condição humana dos detentores do poder, que tem, na santidade decretada, uma das suas maiores forças.
É o Povo de Deus que faz os seus santos. Parece ser esse o caminho que todos entendem.
Santo, santo, santo, é o Senhor Deus Ressuscitado. Boas festas da Páscoa.
Manuel Emílio Porto (altodoscedros.blogspot.com)

       

sábado, 9 de abril de 2011

Pátio dos gentios

Recristianizar será, como o próprio verbo indica, voltar a cristianizar, voltar a ensinar a mensagem cristã. Tendo sempre em conta, como é óbvio, a sua aceitação por parte de quem a ouve. Não conquistar de novo, e muito menos reconquistar.
        Recristianizar é, pois, voltar a cristianizar. Mas, a quem? Como? Com quem? É a primeira questão.
Uma certeza: não poderá ser como foi da primeira vez. São outros os destinatários, outros os espaços, outra a mobilidade, e outros os apóstolos. Os “Paulos de Tarso” são outros, e outros são os gentios.
O tempo das conquistas e reconquistas não volta. Não se vê por aí um novo império prestes a cair, a converter-se, para, das ruínas, se levantar com nova classe dirigente, feita de sacerdotes e vassalos, escolhidos e segregados. Nem se prevêem expulsões de novos mouros. Esse renascimento não acontecerá.
A mensagem, embora a mesma, encontra outro terreno, outros espaços, outros gentios, e outros protagonistas. É um terreno aculturado, com influências de muitas origens. Povos de todas as partes do globo, religiosos, não religiosos, agnósticos e indiferentes. Um terreno global e exigir outros semeadores.
        As imagens valem o que valem, e aí vai uma. Quando se prepara uma terra para cultivar pela primeira vez, as sementes germinam e dão o fruto desejado. Quando se fazem sementeiras por vários anos seguidos, o terreno já não irá corresponder ao desejo do semeador, como da primeira vez. Outros vieram e também semearam. O terreno acomodou-se às sementes e a outras e a mais outras, e por fim, saturada de tanta semente e de tanto adubo artificial, mais podas e herbicidas corrosivos, só produz estereótipos, mal formações.
        As sociedades humanas serão um pouco isso mesmo, apesar da imagem não ser a melhor. Durante séculos, usos e costumes nascidos das sementes ideológicas da velha Europa, do cristianismo e de outras religiões, proliferaram. Nasceram na clandestinidade, quando a ágora era animada pelos pensadores da Grécia e de Roma, e libertaram-se com Constantino que lhe forneceu o ambiente de crescimento. Cresceram e deram fruto. Hoje, semeiam nos mesmos espaços, varridos, entretanto, por outras ideologias e outros interesses. A Europa que nos habituámos a ver já não é a mesma. É outra. Até há quem diga que desapareceu.
O “pátio dos gentios” que o Vaticano reinventa em Paris, é a tentativa de ir ao encontro dos pensadores de hoje, imagem paulina da primeira evangelização.
É um encontro para elites – “entre crentes e não crentes, como refere o Cardeal Gianfranco Ravasi” – na troca de pontos de vista – verso e controverso de realidades, sobretudo administrativas, algo difíceis de entender no tempo presente.
 Porquê Paris para este “pátio dos gentios”? Por “ser um estandarte da laicidade, um mundo interessado no confronte sobre grandes temas”, assim disse o Cardeal.
Mas, o que é certo é que todo o mundo está em adiantado estado de secularização. O Secular e o Sagrado são hoje conceitos apenas da mente. Apesar de tanta distinção que se quis implementar a estes dois conceitos no passado, andam hoje de tal maneira lado a lado, que mal se distinguem. No dia a dia dos povos, eles têm o mesmo sentido. É comum ouvir-se: “no templo sou uma coisa, fora do templo sou como tu”. A distinção está só na farda, ou na roupa domingueira.
Convém que se diga, no entanto, que um secular, hoje, não é um gentio dos tempos de São Paulo. (O dicionário diz assim: gentio – aquele que segue a religião pagã. Idólatra. Que não é civilizado. Selvagem). O homem secular, hoje, é um ser humano, civilizado, cidadão, laico. Quase o mesmo se diz do homem sagrado – um ser humano, civilizado, cidadão, laico.
Nem só do pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. Foi assim entendido. E toda a gente já sabe que é assim. Mas nem sempre assim acontece.
Quando se procura primeiro o bem-estar, sem regra, sem piedade e sem ética, é que logo, de imediato, se diz: alto aí: não vale tudo, “nem só do pão vive o homem”!
Como todos sabem, as mentalidades não se mudam de um dia para o outro. Levam anos. Lentamente, tudo se torna laico. Os cânones ficam-se pelos livros. E por isso os termos passam a inverter-se: “Nem só da palavra vive o homem, mas do pão de cada dia”.
Sem pão ninguém sobrevive. Sem pão, a palavra de Deus é palavra vã. Porque pedir a Deus o pão de cada dia, sem fazer por ele, sem trabalhar, pode ser um insulto ao próprio Deus.
Daí, o quase desinteresse das práticas cristãs, quando as mesmas deixaram de dar sentido aos principais desejos do homem. Afinal, nunca deram de comer a ninguém, a não ser no milagre da multiplicação dos pães.
Dois pontos de vista importam sobremaneira. Primeiro, olhar para fora mais rapidamente, transformando “o pátio dos gentios” de Paris, em novos pátios espalhados pelo planeta, a falar e a implementar o saber e a cultura, e o pão para todos os homens, mulheres e crianças; ou seja, uma Igreja, lado a lado com a sociedade civil, empenhada na construção da cidade terrestre, caminho único em direcção à cidade celeste.
Segundo, olhar para dentro, libertando os crentes, de todas as condições, amarras e imposições morais e administrativas, de costumes ultrapassados, que só impedem a aceitação e prática plena dos ensinamentos de Jesus Cristo. Uma Igreja “Povo de Deus”, de todos, e onde todos participam cada um com a sua tarefa específica; e não uma igreja segregacionista, feita de classes maiores e menores, hierarquizada, feita de celibatários, desajustada ao mundo que pretende servir.
A propósito das festas da Semana Santa, na Espanha, o Cardeal Emérito de Sevilha, Carlos Amigo, dizia numa conferência, na embaixada do seu país em Roma, o seguinte: “a religiosidade popular é uma resposta à mensagem fria e intelectualizada da Igreja Católica, pois trata-se de uma celebração em que todos participam por igual”.
Muita gente seguiu com atenção o “pátio dos gentios” de Paris. Ainda não temos conhecimento de outros mais pátios em outras cidades, vilas e aldeias. Muitos esperam, alimentando esperanças, outros carregados de cepticismo. Alguns com recta intenção; outros e outras, quais fiscais da fé, como os “talibãs”, na busca de hereges para apedrejar.
As crises, quando vêm, atingem a todos por igual. Nem as religiões escapam. Promovem-se encontros para estudar, esclarecer, reformar, orientar. É o que vemos, e ainda bem.
 Mas a evangelização não é nova, é de sempre. Neste ponto nada há a dizer. Já dos protagonistas, duas coisas são evidentes: nem os “paulos de tarso” nem os “gentios de hoje” têm alguma semelhança com os da primeira evangelização. São da nossa época. Resta fazer a sua descoberta. É a primeira questão a resolver.
Manuel Emílio Porto (altodoscedros.blogspot.com)
       

sábado, 26 de março de 2011

Missa dominical na Radio Renascença

Alertado, sintonizei a Rádio Renascença (RR) neste Domingo 2º da Quaresma, para, em silêncio seguir a missa dominical em Vale de Figueira. A curiosidade e o afecto de ouvir o celebrante foram os motivos que me levaram a esta pausa dominical.
        Como toda a gente se lembra, do Pico saiu, há já alguns anos, por motivos sobejamente conhecidos, o Padre Luciano Oliveira. Nos arredores de Santarém foram-lhe entregues as comunidades de Vale de Figueira, Póvoa de Santarém e Alcanhões. Em todas desenvolve a sua actividade, perfeitamente inserido na Igreja Diocesana de Santarém, nas actividades religiosas, sociais e culturais. Ainda há pouco por lá passámos e disso nos apercebemos.
        Pois, neste domingo, 2º da Quaresma, domingo da Transfiguração do Senhor, a missa dominical escolhida pela Rádio Renascença para sua transmissão programática foi a Missa de Vale de Figueira, celebrada pelo P. Luciano Oliveira.
Por essa razão, pelo afecto e pela simpatia que deixou nesta terra, elaborei este apontamento semanal.
 Não para ferir susceptibilidades dos tempos passados, mas apenas e só para lembrar a solidariedade cristã que continua, pelo trabalho que fez e pistas que indicou. E dizer, abertamente, que, por momentos, sentimos a presença do homem da Igreja que as circunstâncias congeminadas de então obrigaram a sair da Ilha que muito o respeitou.
        Gostámos de ouvir a saudação inicial através da Rádio Montanha: “…Uma saudação especial para todos, sobretudo para a minha querida Ilha do Pico que nos segue através da Rádio Montanha”.
Para nós picoenses, não muitos, esta transmissão radiofónica, talvez tenha contribuído para menos presenças nas igrejas e naquele Domingo. Foram, todavia, compensadas por mais atenção e concentração. Nada mais do que isso.
Faz bem lembrar ressonâncias que dificilmente esquecem, sobretudo naqueles que bem conheceram o Padre Luciano e com ele conviveram, quer no Sul quer no Norte da Ilha.
 Os mensageiros, embora instrumentos, também são garantia da eficácia da mensagem. Se bons, a mensagem passa. Se maus, não passa. É um dado reconhecido por todos. Não há que ter medo de o dizer e apregoar, seja a quem for.
        Para o Padre Luciano Oliveira, a continuação de bom e proveitoso trabalho por terras do Ribatejo.
        Manuel Emílio Porto (altodoscedros.blogspot.com)
       

sábado, 19 de março de 2011

Cónego José Garcia

Recordo-o ainda a descer os degraus dos teólogos, lá de cima do último andar, aonde cada aluno tinha o seu quarto para estudar e repousar no silêncio imposto pelo horário da instituição.
       Não era dado a futebóis nos recreios. Mais dado à interioridade, sem deixar de ser alegre e benquisto junto dos outros que o rodeavam.
       Mais tarde, melhor o conheci nas tarefas paroquiais que lhe destinaram na Sé Catedral de Angra. Aqui, sim, conheci-o perfeitamente.
        Durante anos foi admirado e querido na Catedral pelos frequentadores da cidade – praticantes e não praticantes – que nunca lhe faltaram com a adesão às suas solicitações. Foi sobretudo na implementação da liturgia pós conciliar que mais se notabilizou. Ali, na Sé, havia o exemplo claro e nítido de como “as coisas” deveriam ser feitas. Sem excessos, apenas e só com o essencial.
        Foi assim que conheci o Cónego José Garcia. “Pontífice” para a nova geração de então, como então, alegremente e sem maldades, era tido e achado por quem dele se aproximava. Foi sempre cavalheiro, compreensivo e acolhedor.
Nunca relegou ninguém, mesmo dos que com ele não concordavam. E foram muitos. Hoje, passados estes anos – e agora por ocasião do seu falecimento – alguém ainda vivo e de nome feito, lembra os tempos idos, como sendo tempos da “crise sacerdotal”, e do seu papel no meio da tempestade.
O Padre José Garcia foi, na verdade, “um gigante no seu campo de acção”, e foi um “gigante” no meio da turbulência, motivada e incentivada mais pelos de dentro do que pelos de fora. O Cónego Garcia foi sempre frontal, e sempre apoiou quem dele se aproximava. Nunca virou as costas.
Os mestres de então, nas suas “tebaidas” instalados, depressa fugiram. Viraram-se para dentro das quatro paredes, lavaram as mãos como Pilatos, e deixaram as tropas à deriva. Ainda hoje são notórios os seus olhares enviesados e convictos de únicos ícones de salvação eterna.
 Não houve nenhuma crise. Houve, sim, confronto de ideias e de pensamentos. E cada um, conforme as orientações dos formadores, assimiladas durante anos de internamento, seguiu a sua convicção. Não ficaram sendo presa dos que depressa regressaram aos aposentos. Preferiram a liberdade de consciência.
É justo não esquecer quem muito deu “sem olhar a quem”. Se o falecimento do P. Garcia é ocasião para enaltecer, justamente, a sua figura, é também ocasião para, justamente, recordar os novos companheiros de então, alguns também já falecidos, que sempre sentiram a sua mão acolhedora. Agora juntos, no “vale dos caídos”, mereçam a recompensa que os humanos não souberam dar.
Este momento é de admiração e respeito. Por todos os que sofreram e enfrentaram as garras do leão. Recordo com saudade a posição cordial e firme do P. José Garcia, no seu trajecto que escolheu. Também teve de suportar e de enfrentar incompreensões múltiplas. Valeu-lhe a sua estrutura intelectual, exemplar e moral, de amor às coisas da Igreja, e do apoio e admiração que sempre granjeou junto da população de Angra.
Esteve sempre ao lado dos novos companheiros, traídos pelo poder instalado do presbitério. Tarde virá outro de igual estatura moral que lhe faça companhia na galeria dos notáveis da sala capitular da Sé de Angra.
É o meu testemunho a quem sempre me cumprimentou com alegria e boa disposição humana. Faleceu a 15 do corrente na Clínica do Bom Jesus em Ponta Delgada. Paz à sua alma.
Manuel Emílio Porto (altodoscedros.blogspot.com)

                       

quinta-feira, 17 de março de 2011

Angola 69-71

É o título de um pequeno opúsculo publicado em Angola pela Companhia de Comandos e Serviços do Batalhão de Caçadores 2889 no fim da comissão de serviço, aquando do regresso à Metrópole.
Neste opúsculo de 48 páginas, além de um resumo das actividades desenvolvidas durante dois anos, constam as fotografias de todos os componentes da Companhia daquele Batalhão de Caçadores, formado no quartel de Abrantes.
Coube-me esta unidade militar, após sorteio efectuado no fim do curso de preparação na Academia Militar nos finais de Outubro e já quando o Batalhão havia embarcado para Angola. Acabei por seguir e a ele me juntar no dia 13 de Dezembro de 1969, em Sanza Pombo.
O livrinho atrás citado foi o elo que, durante anos, manteve o afecto humano vivido durante dois anos em Angola. Assim aconteceu na celebração dos 20 anos depois, e assim voltou a acontecer agora. Desta vez, e porque os anos se vão acumulando e a dispersão se acentua, com apenas os sete Alferes de então, a saber: Mário Silva (Santo Tirso), João Maçãs (Portalegre), Frankim Baptista (Leiria), Rui Serrador (Montijo), Fernando Rocha (Braga), Domingos Martins (Porto) e Emílio Porto (Pico), respectivamente e na altura: o Alferes Médico, o Alferes de Reconhecimento, o Alferes de Transmissões, o Alferes de Manutenção, o Alferes de Secretariado, o Alferes dos Sapadores e o Alferes Capelão.
Estes “senhores”, acompanhados das suas respectivas consortes, já todos reformados, resolveram encontrar-se em Santarém, a 12/13 de Março, quase quarenta anos depois. À volta da mesa e dos “descansos de sofá pela tarde fora”, deram largas aos “casos” e “outras histórias” ocorridas, revendo e comentando imagens dos tempos idos.
Deste encontro releio o que então me coube escrever e que se encontra na primeira página do opúsculo atrás citado: “ esta pequena publicação pretende ser, pela vida fora, a continuação dessa amizade, a presença de alguma coisa que passou e que não volta, mas que permanecerá, na construção dum ideal único – construir na retaguarda, um Portugal cada vez melhor.”
“In illo tempore” – anos 60/70 do século passado, tempo de imposições que a mitra decretava, apesar da aceitação sem queixumes pelas fracas migalhas do pão de cada dia – havia também o “à rasca” que hoje se apregoa. Era, então, o “à rasca” de se mandar para a guerra – castigo, e também fuga, para quem contestava, para quem recebia em troca o ultraje do poder instalado. Fora daqui! Traidores!!! Alguns, doutores da lei e algozes de então, ainda hoje se passeiam, altaneiros, pelos corredores das cúrias e dos paços. Como bons exemplares fariseus, mandam as criadas "dar anátemas no jornal da aldeia".
 Raimundo, Artur, Benjamim, Arsénio, José Gomes, José Agostinho, Mariano e tantos outros, lá foram, por lá andaram e por lá se ficaram. Aqui os recordo com emoção, olhando os dias traquinas, boémios e "abençoados" da Academia Militar, por entre corridas e palestras castrenses de boa conduta militar e cívica. Era o “à rasca” de tipo inquisitorial: dum lado a espada, do outro a cruz.
Todavia, as cantigas eram fortes e de qualidade. Davam ânimo ao futuro desconhecido. Vingaram e o maná nunca faltou, acabando por construir na retaguarda e nos flancos o ideal que sonharam. Há sempre “alguém que resiste”, e há sempre uma nova porta que se abre.
Hoje, tempo de coisas fáceis, de abundâncias topo de gama, uma coisa estranha nos aparece quase incompreensível: apesar de toda a oferta de bem-estar e ao dispor, a mitra manda pedir esmola - é a diocese também à rasca!
Assim sendo, o “à rasca” é outro: é de fracasso. De uma vil tristeza. Sem tino, navega-se ao sabor dos ventos, e engana-se o povo com a ideia falsa de grande serenidade interior. São, como sempre, as aparências tradicionais. Haverá ainda quem acredite?
É o que temos. Parece que ninguém aprende com a história. Valha-nos a memória do bom Papa João XXIII, das cantigas do Zeca e do Adriano, mais as do Padre Fanhais e das memórias dos que já partiram, mais as recordações daqueles jovens atrás citados, agora velhotes, companheiros nos matos densos de Angola, lugares que foram de solidariedade, de força e tenacidade.
Quem semeia sempre colhe. É a lição que fica. Porque o “à rasca” será de sempre, sempre de novas formas revestido. Uns compreendem-se, brotam dos fracassos humanos. Outros lastimam-se, brotam das incompetências. Compete-nos a todos fazer a avaliação. Pelos frutos.
Manuel Emílio Porto (altodoscedros.blogspot.com)

terça-feira, 15 de março de 2011

Beatificação de João Paulo II

Assunto incontornável nos meios da Igreja Católica, de momento, é a beatificação de João Paulo II.
        Nos últimos dias da sua vida foi acompanhado por milhões de simpatizantes. Uns, crentes católicos, outros apenas admiradores. Foi uma figura extraordinária dos nossos dias.
        Por essa razão, logo no dia do seu funeral, apareceram as vozes gritando que fosse declarado santo imediatamente. “Santo súbito”, assim aparecia nos cartazes, no meio da multidão. Vejo agora que outros, não muito receptivos a esta pressa, usam a expressão irónica de “santo a jacto”.
        Poucos anos já passaram. Ficaram os desejos, ficaram os propósitos de tal notícia aparecer. E apareceu a notícia. No primeiro de Maio haverá solenidade em São Pedro para declarar João Paulo II, Beato da Igreja Universal.
        É o primeiro passo para a declaração de santidade, etapa que, como geralmente se sabe, requer outros complementos, mais comprovativos ainda.
        Como é sabido, a Igreja de Roma cultivou, ao longo dos séculos, uma prática prudente e muito cuidada, na avaliação que faz dos seus servos nas práticas da vida cristã. Que se saiba, tem sido esta a imagem dada ao mundo.
Como já aconteceu recentemente com Madre Teresa de Calcutá, agora um pouco semelhante se verifica: rapidez na avaliação das virtudes excelsas que se exigem no servo de Deus. Têm sido muitos os santos nos últimos tempos.
De uma forma ou outra, aí está o anúncio que deixou muita gente alegre e satisfeita. Já se reservam lugares nos hotéis de Roma para o dia 1 de Maio, pois está prevista uma grande multidão de todo o mundo na praça de São Pedro.
É preciso recuar mais de mil anos para se encontrar um predecessor elevado à glória dos altares pelo seu sucessor. Para exemplo, deixamos o caso do Papa Leão IX (1002-1045) que foi elevado a santo logo após o seu funeral. Não é, pois, caso inédito na História da Igreja.
A grande prova da santidade de João Paulo II é a aclamação universal do povo, que o envolveu em aclamações por todo o mundo. É, como se diz, a grande força. Talvez maior do que o milagre de que agora se fala. “Vox populi, vox Dei” – voz do povo, voz de Deus. Uma forma de capitalizar, ou consagrar as vozes das multidões, que chegam até aos “confins da terra”.
 Neste apontamento, que não é dogmático, mas apenas expositivo, preferimos o argumento que vem do Povo de Deus. É o Povo de Deus que constrói e faz os seus santos, os seus heróis. Sempre assim se disse mas nem sempre assim se fez ou praticou. As paixões de uns e de outros ofuscam por vezes a interacção humana e cristã. Todavia, já é tempo de abandonar o estilo do “religiosamente correcto” e “do cuidado com as palavras”. Quem o diz é Rino Fisichella, Cardeal para a Nova Evangelização. A transparência é sempre o caminho mais seguro, embora nem sempre o mais cómodo.
 O verdadeiro santo é aquele que o povo escolhe. Porque o Povo sabe, melhor do que ninguém, julgar e avaliar os que “ servem sem olhar a quem”.
Com esta avaliação e com a sua autoridade suprema, Bento XVI sancionou e decidiu. Recordando no seu íntimo de Pontífice Máximo da Igreja as palavras do mestre; - “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”; “Tudo o que ligares na terra, será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”; - disse aos homens do seu tempo, aos crentes de hoje que a decisão está tomada: João Paulo II é Beato da Igreja Universal.
 Como curiosidade, será uma beatificação de corpo presente. O ataúde com os restos mortais de João Paulo II será levado para junto do altar. Tudo aponta para mais uma enorme mediatização. A História julgará.
(altodoscedros.blogspot.com)