sexta-feira, 22 de julho de 2011

Apesar da crise.... a festa há-de fazer-se!

Este meu apontamento já vai fora do tempo. Já lá vai uma festa e as outras já devem ter fechado os programas. Todavia, e por isso mesmo, pode ser mais um motivo de festa. Ele aí vai.
As festas são maiores ou menores conforme as posses. Em tempos de crise, naturalmente que serão menores. Mas mesmo assim, há sempre lugar para uma saída, e para uns laivos de boa disposição. Rir, faz bem e é próprio do ser humano. Ridendo castigat mores, com todo respeito, e sem ofensa, pois não se trata disso.
É verdade que as festas maiores começaram com as festas de Lurdes e respectiva semana dos Baleeiros. Depois estenderam-se pelas outras vilas da Ilha, e mais outras do Arquipélago. Tenho a impressão de que tudo começou pelas Lajes do Pico. Estarei totalmente errado? É o que menos importa saber. Continuemos, então.
        Depois de tanta competição, ou coisa parecida – aparece o apelo à rotatividade, à contenção de gastos, e ao “cada um faça como puder”. Não é que se pressintam grandes contendas. No entanto, nestes casos, uns pós de ironia até suavizam e amansam os ânimos.
Por isso não entro nestes malabarismos complicados. Fico pelo que me parece mais óbvio – cada um faça como pode, sem desperdiçar os apoios dos vizinhos. A ilha, e o Concelho em particular, têm tudo o que é preciso.
        Assim sendo, faço a seguinte análise ao Concelho das Lajes, já que dos outros, por estarmos ultrapassados, não importa fazer qualquer análise. Na verdade, o Concelho das Lajes, dentro das suas fronteiras:
        - Têm Bandas suficientes (São João, Lajes, Santa Bárbara, Ribeiras, Calheta e Piedade), para todos os dias da semana à noite no palco central da Vila;
        - Têm um Grupo Folclórico, para um dia de maior movimento, ou à escolha;
        - Têm uma Orquestra, para uma ou duas noites, à escolha também;
        - Ainda têm um Grupo Coral para uma noite dentro de um salão à escolha;
        - Têm o grupo Trovas do Sul;
        - Têm o grupo “Kádacasa”;
- Têm o grupo de teatro Multieremà;
- Têm várias Marchas, prontas a desfilar;
- Tem grupo de Fados e de “Velhas”;
- Têm talvez muitos mais grupos que não conheço.
- Têm Botes Baleeiros suficientes para a sua Regata habitual (Lajes, São João, Ribeiras, Calheta e Piedade);
Todos estes grupos serão a custo zero. Que mais é preciso?
Um artista famoso? Sei lá… Talvez a artista “Deolinda” que tem uma cantiga que diz: “que parva que eu sou”…; mesmo assim, ia ser caro de mais, e parvos, é o que não falta!!!

Por conseguinte, têm o Concelho motivos para fazer a festa, e contar com o povo como nos anos anteriores. Afinal, o que não faltam são as festas!
O cartaz das festas da Madalena foi dos melhores que já vi: “Uma montanha de festa à tua espera”. Por aqui, essa montanha vai espalhar-se pelas ruas, pelos pátios (temos agora um novo e atraente pátio, ali mesmo perto das portas do mar), e pelas lagoas do mar.
Mas, atenção: uma hipérbole é sempre uma forma enfática de dizer e mediatizar. Esperamos que a Montanha, a verdadeira, com o seu ventre adormecido, se aguente assim como está, e que não se espalhe, como outras que vomitaram nos quatro continentes, impedindo aviões e pessoas de fazerem a sua vida normal. Queremos que ela ali se mantenha, firme, hirta, imponente, a nossa maior maravilha das festas que fazemos.
No campo religioso, suponho que ainda tudo será como dantes. Em épocas de crise, todos são “apanhados”. Até o valor do sermão da festa pode ficar nos pregadores da ilha. Sempre é mais uma ajudinha!
Li, algures, a seguinte afirmação: “Por maior que seja o buraco em que te encontres, sorri, porque, por enquanto, ainda não há terra por cima”.
 Boas Festas para todos, pois uma festa, onde não há lugar à boa disposição, não é festa nem é nada! Vamos todos tornar a festa ainda maior. Todos “pr’ós terreiros”, “pr’às águas da lagoa do mar” e pr’á procissão”!

Já agora, não se esqueçam de passar, no dia 7 de Agosto, pelo Porto da Baixa para provar um caldinho da festa do chicharro, e depois no dia 14 pelo São João Pequenino e no mesmo dia pela Feteira da Calheta na festa da Cabra e da Cavala. São tradições que começam a impor-se. Tudo é festa!
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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Como o fermento

Dentro de dias serão as festas tradicionais do Bom Jesus. O texto seguinte, com o título em epígrafe, é de um conceituado teólogo do nosso tempo. O conteúdo poderá estar em sintonia com a mente dos crentes que lá vão. Também poderá ser a chave de abrir a janela para deixar entrar luz mais suave e matizada.

“Com uma audácia desconhecida e inesperada, Jesus surpreendeu toda a gente que o escutava proclamando o que até então nenhum profeta tinha dito: “Deus já está aqui, com a sua força criadora de justiça, abrindo caminho, para fazer a vida dos seus filhos, mais humana e ditosa”.
É necessário mudar. Temos de aprender a viver acreditando nesta Boa Notícia: o reino de Deus está chegando.
Jesus falava com paixão. Muitos sentiam-se atraídos com as suas palavras. Em outros fervilhavam dúvidas. Não será loucura? Donde vem a força de Deus a transformar o mundo? Quem poderá mudar o poderoso império romano?
Um dia Jesus contou uma parábola muito pequena. Tão pequena e simples que muitas vezes passou despercebida dos cristãos. Diz assim: “O reino de Deus é semelhante a uma mulher que tomando a levedura e, misturando-a em três medidas de farinha, consegue fermentar toda a massa.”
Aquela gente simples sabia de que falava. Todos sabiam e tinham visto as suas mães preparar o pão no pátio da casa. Sabiam que a levedura ficava “escondida”, mas não permanecia inactiva. De forma silenciosa e oculta ia fermentando tudo por dentro. Assim é Deus a actuar no interior da vida.
Deus não se impõe a partir de fora, mas a partir de dentro. Não domina com o seu poder, mas atrai com o seu amor para o bem. Não força a liberdade de ninguém, mas dá-se gratuitamente para tornar mais ditosa a vida. Assim temos de actuar também, se quisermos abrir caminhos para o seu reino.
Está a começar um tempo novo para a Igreja. Os cristãos vão ter que aprender a viver em minorias, dentro de uma sociedade secularizada e plural. Em muitos lugares, o futuro do cristianismo dependerá, em boa parte, do nascimento de pequenos grupos de crentes, atraídos pelo evangelho e reunidos à volta de Jesus.
Pouco a pouco, aprenderemos a viver a fé de maneira humilde, sem fazer muito ruído nem dar grandes espectáculos. Já não se cultivará tanto desejo de poder nem de prestígio. Não se gastarão forças em grandes operações de imagem. Buscar-se-á o essencial. Caminhar-se-á na verdade de Jesus.
Seguindo os seus desejos, cada um tratará de viver como “fermento” de vida sã no meio da sociedade. Com um pouco de “sal”, que depressa se desfaz, a vida moderna terá mais sabor evangélico. Virá depois o contágio, o estilo de vida de Jesus a irradiar a força inspiradora do seu Evangelho. O cristão crente passará a vida fazendo o bem. Como Jesus.” (José António Pagola).
 A leitura do texto, apesar de não ser uma tradução exemplar, é compreensiva, está ao alcance de quantos caminham até ao Bom Jesus: – de São Mateus, da Calheta e da Criação Velha. Os comentários serão de cada leitor. Como se impõe.
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quarta-feira, 13 de julho de 2011

No rescaldo da feira...

Só há um caminho a seguir – o nosso, e na companhia dos nossos.
No final da feira, o grupo “Alma de Coimbra” cantou. E terminou o seu canto com o nosso José Ferreira a cantar a Chamateia. No texto desta canção há a quadra seguinte: “Mas no terreiro da vida // o jantar serve de ceia // e mesmo a dor mais sentida // dá lugar à Sapateia”.
        Ora bem. Foi das poucas vezes em que todos os ingredientes se juntaram no mesmo palco com cenário apropriado.
        O nosso caminho está no terreiro da vida. E, embora o jantar já não sirva de ceia, a verdade é que o terreiro continua, e é no terreiro que todos se movimentam e tudo se ajunta.
        Os campos, os nossos campos continuam a chamar. E a dizer a toda gente que são capazes de nos dar aquilo que quisermos. Basta que lhe atiremos umas “mancheias” de sementes e uns punhados de fertilizantes, para logo de seguida nos dizerem: colham, é vosso.
        Os nossos terreiros são dos melhores. Podemos confiar neles porque são de palavra. Nem sempre são planície, pois fazem parte de ilhas vulcânicas, mas mesmo em socalcos, são de garantia.
        Nos nossos campos, os animais encontram o melhor dos ambientes para se desenvolverem, crescerem e darem prazer aos seus criadores. Encontram sustento de qualidade para dar progresso a esta terra, feita de ilhas dispersas.
        Os nossos terreiros, como já foi no passado, são também dos melhores para os produtos hortícolas de ir à mesa do jantar. Em tempos de crise, sempre é bom não esquecer esta vertente. De fora, não vem nada de melhor qualidade. Talvez, umas frutas de climas exóticos e pouco mais.
        Na exposição de produtos, lá estava patente o que acabamos de dizer. Desde os produtos lácteos até aos vinícolas. Do mel aos doces caseiros. Dos livros aos artesanatos.
        A Feira Agrícola Açores foi essencialmente agrícola. Era essa a sua especialidade. E, no nosso ponto de vista, conseguiu os seus objectivos.
        Nós vivemos em ilhas. O terreiro esteve em evidência, por entre os cabeços do Caminho Largo, na freguesia da Piedade. Do outro lado dos cabeços, ficava o mar imenso, a planície dos Açores.
        Na verdade, somos terreiro, mas também somos planície. Esta segunda merece um evento que fale e diga da sua história paralela? Talvez não precise de tanto, pois, todos os dias se fala dos mares, dos pescadores e dos pescados. Quem passa perto dos portos de pesca tem ocasião de ver o que se faz diariamente. Todos os dias, ou com frequência, é a imagem que se vê, aqui bem perto, no pequeno porto – uma espécie de presépio à beira costa plantado.
        Talvez como complemento. Muitos dos que estavam no terreiro também tem um pé nas águas, e talvez tenham saído mais cedo para acudir ao barco que esperava. Faltou isso mesmo: mais qualquer coisa para chamar a atenção dos mares que ficavam para lá dos cabeços. Não foi, todavia, nenhuma pecha. Talvez seja eu mesmo que assim pensei.
        Fica o tema desta crónica – o nosso caminho é este. São os nossos campos e os nossos mares. Na companhia dos nossos. Dos que falam a nossa língua, dos que falam e entendem das mesmas coisas, e fazem a sua vida dentro das mesmas fronteiras – na terra e no mar.
        Em ambos, haverá sempre a dor mais sentida. E haverá sempre lugar para a sapateia. A noite ia calma e ameaçava chuva miúda. Ninguém arredou pé. Foi o que senti, naquela noite de 10 do corrente, na encosta do Cabeço da Era, por entre pinheiros, faias e incensos, ouvindo a Chamateia – ali feito sapateia, vestida de capa e batina.
        Obrigado à Câmara das Lajes por ter “desviado” o grupo “Alma de Coimbra” para aquele lugar, e para aquela ocasião.
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segunda-feira, 11 de julho de 2011

O espelho da ilha.... e dos Açores

Passámos a 9 e 10 do corrente pelo Matos Souto, onde decorreu a Feira Agrícola dos Açores.
        Além de ter sido ocasião para ver e avistar caras conhecidas, que há muito tempo não via, foi ocasião de olhar para os pontos de interesse que ali se manifestaram durante o tempo que durou a feira.
        Nos concursos, todos eles, mas sobretudo dos animais, assistimos a níveis de qualidade que são de realçar. Só em eventos, como este, é que o público tem ocasião de ver o que estas terras são capazes de produzir, e ao mesmo tempo, conhecer os homens capazes de o conseguir.
        Na verdade, não basta só a terra, a pastagem, a ilha, o verde das campinas, o clima. O mais importante é a capacidade, o saber, o traquejo, a experiência e o empenho, de melhorar a qualidade dos animais e de procurar as melhores raças, a fim de melhorar o produto final.
        Ao percorrer os corredores dos animais, quer de um lado quer do outro, e olhando para a sua identificação, verificámos que havia animais de muitas ilhas, naturalmente com predominância (se errar, não faz mal), para a ilha do Pico, o que não é de estranhar, já que o evento se desenrolava nesta ilha.
        Verificámos também o afecto que se empresta aos animais, não só dos seus tratadores directos, como também das crianças que por ali corriam e saltavam de um lado para o outro. Algumas sentadas, ao lado dos animais mais novos, olhando quem passa, talvez dizendo: “este é meu”. Uma voz feminina dizia claramente: “esta não vendo por dinheiro nenhum”.
        Temos a certeza que as imagens daqueles dias andam por todas as outras ilhas, o que nos faz credores de uma actividade em expansão que importa consolidar cada vez mais.
De referir, e é óbvio, que para além da quantidade, ali se observou uma característica de marca – a qualidade – objectivo que deve acompanhar qualquer actividade do ser humano, nos nossos dias. E o exemplo lá esteve. Bastou percorrer o pavilhão dos produtos expostos, para isso mesmo verificarmos. Hoje, sem qualidade, é melhor estar quieto.
Uma nota louvável para os tempos de crise que atravessamos: a restauração foi entregue a outros, que, ocupando os espaços destinados, lá foram alimentando quem por ali passava e se passeava. Pelo que sei, faltou aviamento na cozinha. Muitos só almoçaram por volta das 15 horas de sábado. De qualquer forma, parabéns aos responsáveis pela feira, e… que voltem para o ano. O espaço está feito, é só ir à arrecadação e montar de novo.
O fim da festa esteve a cargo do grupo “Alma de Coimbra” (antigos orfeonistas de Coimbra), que ali, no meio dos arvoredos, espalharam pelo Caminho Largo e pelas encostas do Cabeço da Era, de cabelos branqueados e com as suas vozes já maduras, as mais belas melodias de sempre da cidade do Mondego e de outros lugares onde se fala português.
Não se esqueceram – não fizesse parte deste grupo o nosso José Ferreira – da Chamateia, um tema que fala do terreiro da vida, ali mesmo bem representado nos arranjos daqueles dias festivos. Faltou o Boi do Mar que ainda não está preparado, revelou o maestro. Esta terra tem dois bois – o boi do mar e o boi da terra. Teria ficado tudo mais completo. Foi um final de festa em cheio.
Uma nota final, relativa ao que lemos, quando chegámos a casa, no sábado à noite, dia 9: “a partir das 13,30 já as sopas, no Campo de São Francisco, em Ponta Delgada, tinham faltado”.
É outro ponto de vista: quem se mete com o Espírito Santo, ou se mete com recta intenção, ou então, não se meta.
Na feira, não houve Espírito Santo e nada faltou. Houve espírito são, primeiro caminho para chegar ao Santo. É melhor deixar o Santo para os que nele acreditam, para as ocasiões acertadas, nunca acomodadas, desvirtuadas. Ninguém chega a santo se não for primeiro são. Para dissipar dúvidas, são vem do latim sanu que significa não estragado, sem defeito. Melhor diria: bom senso.
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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Mais uma vez... o Espírito Santo

Mais uma vez, e sempre, o Espírito Santo. Assim aconteceu, como vem sendo hábito, para o lado das Lajes, na festa dos Apóstolos Pedro e Paulo.
Nos finais de Junho passado, por toda a parte se falou em São Pedro, primeiro Papa da Igreja, e do seu companheiro, pregador da fé aos gentios.
Nos tempos recuados da sua presença física no mundo, andaram misturados com as gentes do seu tempo – vestidos como os demais. No seu íntimo possuíam a chama viva do Espírito Santo, uma diferença que não se via nem se entendia, uma força estranha.
Foi com o seu exemplo de firmeza, e fé da força do Espírito que evangelizaram. Os “gentios” de então viram e testemunharam: “vede como eles se amam”. Neles não havia segregação, não eram nem faziam parte de uma classe à parte.
Eram homens de fé, no meio de outros homens e mulheres, uns solteiros, outros casados. Pedro também era casado. Faziam comunidades que acreditavam em Jesus. O seu apostolado foi esse mesmo – fazer comunidades em espírito e verdade. Sem segregações.
Tudo isso foi cimentado pela acção do Espírito Santo que habitava no coração dos que se iam juntando. O “Espírito Santo sopra onde quer e como quer, sem olhar a pessoas”.
Neste final de Junho lembraram-se os primeiros passos da Igreja sem regras, nem cânones escritos, apenas guiada pela acção do Espírito.
Felizmente que nesta terra, se colocou a festa do Espírito ao lado da festa de São Pedro. Sabemos das circunstâncias históricas dessa mudança. Hoje dizemos que foi a melhor forma de prestar homenagem ao primeiro Papa da Igreja. Porquê? Porque, acima de tudo e de todos está a acção do Santo Espírito.
 Antes da exaltação ao sucessor de Pedro, importa a exaltação ao Espírito. O primeiro é humano, o segundo é transcendente, e está em qualquer homem de boa vontade. Ao longo dos tempos, foi o ser humano a causa de muitos males e desvios dentro da própria Igreja. O papado não se livra de muitos períodos negros, mesmo que se arrogue ser o legítimo representante de Deus na terra. E de muitos desajustamentos ainda hoje. Os maiores males da Igreja ocorreram sempre no seio dos poderes instituídos. Ao contrário, sempre brilhou a força do Espírito, no Povo Santo de Deus.
Junho terminou, mais uma vez, com a força do Espírito Santo no meio de nós. Não só nas Lajes, mas também na Baixa, e daqui a dias na Almagreira, ou em outros lugares por essa ilha toda.
São sinais da presença do Espírito, a imprimir alma e vida às outras festas. São sinais cristãos, inspirados na fé, e não em imposições desprovidas de sentido.
São sinais de alegria para dar e partilhar, cumprimentos afectuosos, um “bom dia” ou uma “boa tarde”, cheia dos sentimentos tradicionais que nos caracterizam.
Estou em crer que são fruto da vontade de participar. Hoje isso é notório. Por toda a parte. A religiosidade popular é assim: aparece por si, sem regras fixas e rijas. O acto de participar não obedece a conceitos prefabricados nem a indicações paroquiais ou episcopais. Brota por si mesmo. É fruto do Espírito. Deus não precisa de invocações buriladas para dizer o que quer e deseja. Basta-lhe a simplicidade da alma que escolhe para realizar a sua acção benfazeja.
Não levará muito tempo, é a nossa opinião, e esses mesmos sinais poderão estender-se a outras festas. Serão os povos que o farão. Sempre eles na dianteira.
Anselmo Borges, conceituado teólogo português, publica um interessante artigo no jornal de Notícias de 25 de Junho sobre “As sopas do Espírito Santo”. A certa altura diz ele assim:
“Houve sempre, ao longo da história da Igreja, um conflito entre os que acentuam o lado visível, institucional, hierárquico, e os que sobrepõem à Igreja visível uma igreja espiritual, carismática, fraterna. Os franciscanos “espirituais” – fraticelli (irmãozinhos) –, desgostosos com os Papas que abafavam o Espírito, aderiram à inspiração carismática, espírito-santista do monge Joaquim de Fiore (século XII), que dizia estar o mundo dividido em três idades: a idade do Pai ou da lei, que é a idade do medo e da servidão; a idade do Filho, que é a idade da submissão filial; e a idade do Espírito Santo, que é a idade do Amor, da Liberdade e da Fraternidade.”
À luz destas palavras, eu diria que estamos na terceira idade, na idade do Espírito contra a arrogância e a prepotência do poder absoluto que só afasta e não atrai.
Que diria este teólogo português se, daqui a dias, visse esse mesmo Espírito Santo espalhado pelas ruas de Ponta Delgada por motivos políticos e de promoção turística, perante 12.000 sopas?
 Seria de novo “Constantino”, agora feito "Mordoma", a cobrar o fruto da liberdade concedida, satisfazendo assim as tropas com pão e circo?
Que dirão os crentes e as irmandades - já não digo o responsável máximo, porque não existe - quando o Espírito Santo é usado para fins puramente folclóricos e políticos? Não sabemos.
Mais uma vez o Espírito Santo... Pelos piores motivos!Gostaríamos de saber a resposta do conhecido teólogo. Como também gostaríamos de saber o que dizem os teólogos do Santo Ofício.
-Texto escrito na ortografia antiga.
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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Mete-se pelos olhos dentro....

O Concílio Vaticano II é claro, bastante claro mesmo, quando trata do papel dos leigos na Igreja Católica. Muitos trabalhos poderão eles fazer, com eficiência e competência, sem adulterar o depósito da fé, sem afrontar a autoridade, a doutrina social da Igreja, nem o santo Povo de Deus. Com a mais segura das garantias.
        Não vamos aqui especificar muitas das tarefas que poderão eles desempenhar. O texto conciliar dá liberdade suficiente, para, caso a caso, se optar por aquela que for julgada mais razoável, consistente e oportuna.
Por esse mundo fora, encontramos, com frequência, homens e mulheres à frente dos destinos dos jornais, revistas e outros meios de comunicação social da Igreja Católica. Geralmente são leigos os nomeados ou escolhidos para os jornais, para as rádios e as televisões. Nem padres nem bispos se vêem por lá. Apenas e só poderão ter e deverão ter responsabilidades de supervisão, tarefas bem comedidas e de pura retaguarda. A eles compete-lhes outras tarefas mais específicas – aquelas directamente relacionadas com a acção litúrgica da Igreja.
        Temos exemplos aqui nas ilhas a não repetir, e muito menos a dar continuidade a outras anacrónicas.
Começamos por estranhar uma nomeação já anunciada para o jornal A União, um jornal que tem uma bonita história para a Igreja e para os Açores.
Se na história passada, foram seus directores, homens sacerdotes de prestígio e das letras, os condicionalismos, hoje, são outros, o caminho terá de ser outro. Nos dias que correm, e à luz do Vaticano II e dos condicionalismos actuais, não faz nenhum sentido continuar a ser da responsabilidade directa de um director eclesiástico. Porquê? Porque aos eclesiásticos competem outras tarefas, e porque hoje as competências estão mais do lado dos leigos do que daqueles que saem dos seminários, ao contrário do que acontecia antigamente. Os exemplos estão à vista de todos.
Se a razão desta mudança é política, então estamos perante o sarcasmo e o afronto ao respeito para com todos os que ainda acreditam. Os crentes estão espalhados por toda a parte. Cada um opta livremente. Escolhe livremente. À Igreja compete reconhecer esse direito e nunca dar a ideia de favorecer este ou aquele grupo. Também por aqui se alimenta o descrédito.
Finalmente, estranha-se que Angra ande a passar por carestia de homens e mulheres, católicos de confiança e de saber, para assumir a responsabilidade do jornal A União. Angra, que sempre foi forte nos leigos que tinha no seu seio, anda hoje deficitária? Sinceramente, não acreditamos.
Por estas bandas, ainda nos recordamos do fim do Correio da Horta. Que, quer se queira quer não se queira, o seu fim foi da responsabilidade dos eclesiásticos, e não dos leigos que por lá andaram.
De “O Dever” só lamentamos a reviravolta de 2003, que – recuando no tempo, abandonando uma orientação conciliar de provas dadas – não trouxe qualidade nem algo que se pareça. Os mesmos problemas se colocam.
Os responsáveis, ou o grande responsável, que entenda. Tudo isto se mete pelos olhos dentro.
Sabemos que tudo é relativo e ouvimos com frequência apelos ao que temos: “sempre é melhor ter do que nada ter”. É uma conformidade doentia, confesso, mas contra ela só o Espírito Santo poderá trazer a cura.
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texto escrito no acordo antigo
       

       

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Crónica sanjoanina

Dois dedos de conversa aconteceram, numa noite de São João. Noite serena, à beira da tasca, bem surtida e bem apetitosa. Muita gente, por ali à volta, na conversa amena. Uns atentos, outros distraídos, e outros mirando.
Familiares e amigos ali se encontraram, fortuitamente. Logo surgiram, de imediato, dois dedos de conversa, enquanto a marcha se divertia e fazia divertir. Uma marcha feita de todas as idades. Porque assim é que deve ser: a comunidade inteira participa.
        Enquanto as companheiras se divertiam com as suas novidades – sempre novas e sempre velhas – ficavam os companheiros a desbobinar também coisas velhas e novas, estas mais específicas e singulares, quase todas das áreas castrenses, e também, as muito específicas do reino dos castos.
Ninguém pode estranhar. Os percursos, embora diversos no tempo e no espaço, foram semelhantes – na freguesia, na guerra e na dispensa do santo ofício.
São poucos, mas ainda são alguns, os que, no fim da vida, se podem orgulhar de ter recebido os sete sacramentos da Santa Madre Igreja! Por isso, serão gloriosos, com direito ao melhor dos melhores tronos dos reinos celestiais, rodeados de anjos e arcanjos, querubins e serafins!
As histórias da guerra são sempre as mais marcantes, mais solidárias, e por isso, paradoxalmente, as mais humanas e cristãs.
Foram “castigo” da mitra, exclusão forçada. Depressa se transformaram em humanidade salvadora, antítese do reino que ficou para trás, lugar de podridão e mentira. Que, como ontem, hoje e cada vez mais, parece continuar a sê-lo.
 Nada muda. Tudo parece ser igual. Mas as evidências ou consequências vêm sempre ao de cima. Já dizia o velho chanceler da cúria: “são poucos os que não molham o prego”.
É na dificuldade, na luta pela sobrevivência que os laços humanos mais se fazem sentir e deixam marcas para sempre. A solidariedade só aparece no meio da desgraça e do abandono; vem sempre de outros que andam longe, dos quais menos se espera; os mais próximos fogem, como Pedro. Quando todos estão bem, não se fala em solidariedade. Que se arranje e que passe bem!
Porém, passadas as horas difíceis, as guerras, os abandonos, e encontrados os tempos mansos e estáveis, geralmente vem a mesma tentação: que se arranjem os algozes de antanho, e que passem bem.
As histórias acabam por ser repetidas pela vida fora, perante os que passam e os que vem depois. Repetidas e aumentadas, porque os fregueses pouco mudam e passam de geração em geração o que sempre fizeram e dizem. E deixam sempre a sua marca. Quem conta um conto acrescenta um ponto. Os comportamentos não mudam facilmente.

Ficaram as histórias do professor Pisca-pisca, do Presidente Amaro, da tia Maria da Ribeira. E também – é bom não esquecer – as histórias do Reitor e do Monsenhor.
Do professor Pisca-pisca que vigiava o padre, e vigiava a mulher, quando esta ia para a igreja. Do Presidente Amaro que exigia ser consultado quanto à procissão do padroeiro. Da tia Maria da Ribeira, que exigia saber qual era a opinião do padre sobre os jarros das flores do altar.
Do Reitor, que recebia mensagens diárias, de comportamentos desviantes, e de práticas antes nunca experimentadas.
Do Monsenhor, que controlava a modernidade doutrinal. De ambos, trocando mensagens entre si, levadas e trazidas por informadoras piedosas e assíduas às novenas das almas.

Da guerra, ficaram os encontros com homens, carregados de problemas familiares, de bebedeiras frequentes, de ausências prolongadas, de doentes, mutilados, e mortos enviados em caixões de chumbo.
Do Tenente-Coronel, Comandante, que todos os dias se embebedava e chorava pela mulher que lhe tinha falecido, vítima de cancro no seio, mais do filho, metido pela droga.
 Do Major, Segundo Comandante, que, com feridos à sua volta, aos berros, dizia: “lá por morrer uma andorinha não acaba a Primavera”; valendo-lhe, da reacção furiosa e imediata, correr depressa para o quarto!!!
Das chuvas e da seca prolongada que condicionava o tempo de paz e o tempo de guerra, ficaram recordações, lembranças de solidariedade, nunca sentidas antes nos corredores dos paços, das cúrias e dos passais.

A noite sanjoanina já ia longa. Era tempo de dispersar. Outras ocasiões virão, e outras histórias se hão-de contar. E os blogs poderão registar.
Que belas estavam as iscas de atum e as lulas guisadas!...Até daqui a dias.
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domingo, 26 de junho de 2011

São Pedro... é na Baixa

Sim! Na Baixa!
Tenho toda a razão, a minha, para o dizer. Tal como teve quem escreveu, e eu li noutro lugar, assim: “o Espírito Santo é no Pico”!
Assim começo, e vamos por partes.
        São Pedro – primeiro Papa da Igreja – é um santo popular. Adquiriu popularidade para estas bandas. Tal como São João e menos Santo António. As popularidades não são iguais em toda a parte. São mais intensas ou menos intensas consoante as apetências dos devotos e devotas, e as histórias milagreiras avançadas pelos pregadores de tempos idos. Tempos em que era mais fácil adquirir fé. Ora vejam.
        São conhecidos os modos antigos de angariar fundos para sustento da paróquia. Entidades autónomas, próximas umas das outras, viviam à custa dos fregueses. Nem sempre as orientações eram bem aceites, mas em tempos isolados, de muita carestia, os contágios mais liberais não impediram a fé e a crença no santo que o pregador apontava. E a afluência numerosa acabou por impor-se. Tanto dos fregueses menos fervorosos, como dos outros vizinhos mais próximos.
Foram estratégias levadas a cabo no sentido de melhorar a vida paroquial. Em tempos difíceis, a fé também dava alguma coisa para manter a vida. “Quem trabalha no altar, vive do altar”. As festas, muitas delas, assim se foram implantando, e se estenderam às mais recônditas ermidas e ermidinhas ao longo da costa.
Assim se compreendem as “romarias” para São Pedro da Baixa, para São João do Calhau, e outras que aconteceram por toda a ilha. São Pedro, o da Baixa, foi sempre ponto de encontro dos povos da Ponta da Ilha, desde a Calheta pelo sul, depois Piedade e Santo Amaro já pelo norte. Sem esquecer São Jorge em frente.
       
        Não afasto a ideia de que hoje se vai à festa pela fé que se tem. Fiquem tranquilos os fiscais do santo ofício! Acredito que muitos lá vão por esse motivo e até levam as suas oferendas para arrematação. Mas não é a fé o grande motivo de ir à festa, ou de ir ao Calhau, nem de ir a mais longe. É mais o hábito, o costume, o ver amigos, o convívio, ouvir a banda ou bailar a chamarrita pela tarde e noite dentro.
        E também – é bom não esquecer – a visita ao amigo que está na adega, que tem preparada a melhor ementa da festa para oferecer a quem aparece. As novidades da horta da adega, o peixe ali ao lado pescado, os molhos de salsa crua, as saladas frescas colhidas e lavadas na altura, são do melhor que se apresenta.
        Hoje, as próprias pessoas reinventam a própria festa. Os crentes e não crentes, com mais ou menos espírito criativo, não esperam por indicações episcopais nem ouvidoriais, e lá aparecem com os seus açafates de mini rosquilhas, que distribuem a quem passa, lá para os fins da tarde. São inspirações do “divino”, aprendidas pelo Espírito Santo que é de todos, formas de participação na festa que herdaram e desejam manter viva.
        As festas do Espírito Santo são as maiores dos Açores. As que mais se vêem e se praticam. Fazem parte da nossa identidade. Nada mais natural do que levar um pouco do seu “espírito” para outra qualquer festa. O “arrelique” da mini rosquilha ou mini véspera é um sinal da presença do Espírito Santo. Uma mensagem que se leva para junto da família.
        São Pedro, o da Baixa, não afronta outras festas. Nem outras “novas” que vão acontecendo, como acabo de verificar. Até as saúda, e que venham para ficar. Mas, por enquanto…é na Baixa!
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-texto escrito na ortografia antiga

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Um Junho cheio...

Um Junho cheio. Cheiíssimo. De tudo um pouco. Até de eleições “dispensáveis”. Se enumerar, corro o risco de ser incompleto; e outros dirão: olha, falta isto e aquilo, e mais isto e mais aquele outro…
        Aí vai uma data delas, conforme a minha alambrança.
        Tudo começou com o movimento das crianças no seu dia – um de Junho. Para logo a seguir, no dia 4, as mesmas promoverem o seu festival infantil “Baleia de Marfim”. Terão sido as melhores de todas as festas, pois são as crianças a garantia do nosso porvir. É redundante dizer mais.
Depois, foram as eleições que nos obrigaram a novas escolhas. Sabe-se lá no que irão dar!... É a nossa sobrevivência colectiva sempre ameaçada, posta em causa. Foi sempre assim. É a nossa sina.
        Vieram a seguir as festas maiores dos açorianos – as festas do Espírito Santo. Foi o Sábado, o Domingo, a Segunda e a Terça-feira, a Trindade, mais as sopas que abundaram, mais os pães, rosquilhas e bolos nos Impérios de toda a Ilha; porque o Espírito Santo foi no Pico, como se disse nos jornais;
        Foram e vão continuar a ser as tradicionais festas dos santos populares – o António, o João e o Pedro. De uma ponta à outra da Ilha, passando por ruas e ruelas, mais esta ou aquela Ermida, na adega, debaixo da latada, ou no terreiro, à volta da fogueira, de tudo se falou, de tudo se bebeu, de tudo se petiscou e também se balbuciou a reza ao santo preferido, não vá ele vingar-se dos nossos esquecimentos.
        Nas hortas, e hortinhas mais à beira da costa, muitos tiraram novidades que alegraram quem as semeou, apesar da falta de chuva que impediu ser produto de maior qualidade e quantidade.
 Neste seguimento, convém reparar no que nos dizem alguns entendidos: para amansar os efeitos da crise e nos safarmos do afundamento, basta que todos os portugueses passem a consumir produtos nacionais. Cultivando o mais que se puder e comprando do que se produz dentro das fronteiras. Se assim acontecer, em pouco tempo ficamos por cima da linha da água.
Mas isto é assim mesmo, como nas eleições. A gente semeia, e havendo bom tempo e chuva, as novidades são de qualidade. A gente vota e havendo juízo e um pouco de calma, os resultados também são de qualidade. Quando falta a chuva e não há juízo tudo se vai. Às vezes, nem sequer chega a nascer. Aborta antes do tempo. Mas… dos maus agoiros, livrai-nos, Senhor!
        Resta saber se, no meio de tanta incerteza, estas riquezas que Junho nos deu voltarão a vir no ano que vem. Esperemos que sim. Fora com pessimismos.
Esperemos que voltem as crianças no dia um, que volte outra “Baleia de Marfim” e que voltem as nossas festas populares; para continuar a dar a todos a certeza da devoção à cultura que nos identifica, à pátria que construímos, o louvor e a acção de graças ao Espírito Santo que nos acolheu, bem como aos santos populares que nos alegram no meio das agruras da vida.
Das eleições, só daqui a 4 anos. E, por favor, não se lembrem de acabar com dias que tradicionalmente reservamos para as festas. Desde remotos tempos. Não são os feriados, nunca foram, as causas de menos ganha-pão. E nunca foram causa de menos receitas para o estado.
        Faltou alguma coisa? Faltou. Faltou completar o que dizia na semana passada sobre os exames dos alunos: nada de cabular, como fizeram os candidatos a novos juízes. Só nos faltava mais este exemplo!
Faltou mais ainda? Sim, dar os parabéns ao jornal “O Dever”, instituição respeitosa, por mais um aniversário. Aqui os deixo, formulando votos de muitos anos de vida.
Por aqui me fico. E até um dia, se Deus quiser.
Manuel Emílio Porto
(altodoscedros.blogspot.com)
(texto escrito na ortografia antiga)
       

sábado, 18 de junho de 2011

O insólito continua...

Acabo de ver na SIC uma notícia com o título “O Decote da Discórdia”. Depressa me apercebi do que se tratava. A uma jovem, adolescente, havia sido negada a comunhão, por ter o decote exagerado.
Em cena televisiva lá estavam: a jornalista, a jovem e a sua mãe. Todas apreciando, discutindo o atrevimento do senhor prior em ter feito uma “desfeita daquelas à minha filha!”
Não me detive mais tempo a analisar o que ouvia. Bastou-me somente constatar mais um sinal dos tempos retrógrados e de má memória.
A propósito, transcrevo na íntegra um texto colhido há anos num jornal de língua espanhola, e que parece vir nesta sequência de coisas insólitas.
“Na cátedra de Jesus sentam-se os talibãs. Não façam, nem o que dizem nem o que fazem. Esta paráfrase das palavras do próprio Jesus pode parecer impertinente. Não será mais do que a sentença que Ele pronunciou perante os que se sentavam na cadeira de Moisés. Ocorreu-me quando me iam chegando notícias das actuações dos novos curas vestidos de viúvos inconsoláveis que nos vão chegando dos seminários.
        A revista Golias sustenta que é preciso denunciar o pecado e o pecador. Ela faz sempre assim. Limitar-me-ei ao primeiro já que a lista dos aludidos está á disposição de quem tenha curiosidade.
        Um cura jovem de um povo de Madrid proibiu numa boda que a irmã do noivo lesse uma carta dirigida ao pai que havia falecido há um ano depois de ter estado em coma durante dois anos. “Tenho de fazer tudo segundo o ritual”.
        Outro pároco de uma diocese de Madrid não deixou que uma catequista com 15 anos de serviço fosse a um curso de catequese “porque não falava aos meninos no demónio”.
        Um terceiro expulsou do coro da paróquia uma senhora porque foi cantar na boda civil de uma amiga. O mesmo dedicou a homilia de Natal ao tema da retirada do Crucifixo das escolas. (Quem me informou dizia: estou contra retirar o crucifixo, mas não é assunto para o dia de Natal”!)
        Outro aproveitou a leitura sobre os Reis Magos para denunciar os que não se ajoelhavam na consagração, por orgulho, porque não querem submeter-se a Deus.
        Um bispo da nova jornada, também jovem, vai fazer a visita pastoral. Diz ao secretário que previna para não esquecer a água para os lavabos da missa.
        São curas recadentos. Um deles em Toledo interpela nas ruas os meninos que não vão à missa e os que vão. Como consequência, gente que ia á missa, deixou de ir.
        Há pouco tempo um cura de Madrid repreendeu três vezes os fregueses na missa: porque rezavam o gloria muito depressa, porque a uma senhora soou o telemóvel, e porque comungavam trezentos e só cinco se confessavam. Quem me contou saiu.
        E uma história final: numa paróquia perto de Madrid o pároco preside a uma boda tradicional. A noiva está velada. Depois dos consentimentos o cura disse ao noivo: “Já é tua mulher. Podes levantar-lhe o véu”. A meu lado estava uma feminista que comentou: “se Freud ouvisse esta de levantar-lhe o véu…
        Três características têm os novos curas:
        A sua sujeição absoluta à lei. Como no caso dos fariseus.
        Têm o mesmo discurso da dignidade e da autoridade. Uma freguesa afirma: “Onde há mestre não manda o marinheiro”.
        São ideologicamente conservadores e da extrema direita. Os homossexuais são doentes, as mulheres devem sujeitar-se aos maridos, o aborto é pior do que a fome, os pobres são os que não tem fé, e Zapatero é a incarnação do diabo.
        A seu favor: todos são muito piedosos. Como os fariseus”. Carlos F. Barberá

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Venho cumprir um "Gasto de Coroa"...disse o João da Carolina, acabado de chegar

A tia Rosinha da Canada da Rocha, de oitenta e tal anos, andava atarefada na colheita das sementes de nabo para o ano seguinte. Era a meio da tarde, e o sol de Setembro batia quente nas paredes brancas do balcão. O tempo ia de feição para secar aquelas sementes. Quando foi dentro, à cozinha, para ver se os inhames precisavam de mais água, bateram à porta. Veio, apressada, e perguntou:
        - Quem é?
        - O João da Carolina.
- Não acredito. O João da Carolina?!
- Sim, sim, o João.
- Deixa-me cá ver. Olha, olha, quem havia de aparecer! Há tantos anos desaparecido para essas Américas, sem dar sinal! Entra, e senta-te ali naquela caixa, e dá cá um abraço e um beijo, que eu andei contigo ao colo.
E continuando, insistiu: Diz-me lá, conta-me a tua vida que eu gosto de saber; às vezes dizem-me umas coisas, mas nunca fico sabendo, até porque já oiço mal.
O João, melhorando-se no lugar onde se sentara, começou:
- Olhe, os primeiros anos foram muito maus. Para a América fui no dia 8 de Janeiro de 1950, num grande navio. A tia Rosinha lembra-se daqueles grandes navios italianos que passavam aqui no canal? Pois, foi num desses. Na altura tinha vinte anos. Embarquei em Ponta Delgada. Foram vários dias de viagem, já não recordo quantos, ao certo.
Fui com carta de chamada. Quando cheguei, mandaram-me lavar roupa e pôr a secar. Fazer limpezas domésticas. Ganhei os primeiros dólares e, passados dois meses, num belo dia, meti-me no comboio e dei comigo na Califórnia.
 Aí conheci um homem da Graciosa que me indicou um lugar para trabalhar. Num grande rancho de gado. Foi o melhor que me podia acontecer, pois como sabe, aqui nesta ilha, foi sempre o que soube fazer: tratar de gado.
 Casei, melhorei a vida e vivi muitos anos bem, desafogadamente. Mas depois… a mulher com quem tinha casado, deixou-me, quis ir viver com outro, e fiquei sozinho mais um filho que ela me deu.
 Hoje estou reformado, vivo sozinho numa casa que tenho nos arredores de Sacramento. À volta, tenho árvores de fruta, umas aves em cativeiro, e por ali vou vivendo. Já vou com 70 anos. Não tenho mais nada. O meu filho casou e foi para as ilhas Guam, onde por lá anda a pescar e faz a sua vida. Agora só me restam os dias finais, que só Deus sabe quantos. Mas queria, antes de regressar, cumprir uma promessa ao Senhor Espírito Santo – um gasto de coroa.
- Vais cumpri-lo, aqui, na nossa igreja?
- Pensava ser aqui. Aqui é que nasci e foi naquela igreja que me baptizei. O Padre Jacinto (o Velho), é que me baptizou.
- Está certo. Não acredito que leves a coroa na casa onde nasceste, pois ela já caiu. As águas infiltraram-se e aquilo foi apodrecendo tudo. Vai ser na casa do teu primo?
- Não, não. Vou usar a casa grande, o salão. Talvez a direcção autorize. Vou falar primeiro com o presidente. A tia Rosinha vai ajudar-me a lembrar quem é que vou convidar, e quais as coisas todas que são precisas.
- Tudo o que puder, faço de mil amores. E o Padre? Olha, que ele vive aqui ao lado, na freguesia vizinha, mas vem ao Domingo. Vais ter que combinar com ele o dia e a hora. Combina com ele. Vais ter sorte, que ele é um moço bem ensinado.
E, continuando, mais disse:
- Hoje em dia não é como antigamente. Os padres são poucos, dizem, e não parecem lá muito pacientes…, Mas este é bom.
- Está bem, tia Rosinha. Daqui a dias volto para falar de novo consigo. Adeus.
Setembro já ia alto e o Outono andava por perto. Naturalmente que o João vai passar aqui o Inverno. Foi uma pergunta que ficou por fazer. Há-de ser da próxima vez quando ele voltar, pensou consigo a tia Rosinha.
Não passaram três dias e o João estava de volta.
                               ***
- Então, o que resolveste?
- Olhe tia Rosalina, vai ser no segundo Domingo de Páscoa do ano que vem.
- Quer dizer que vais passar aqui o inverno todo!
- Sim, sim. Já foi com essa intenção. Tenho tempo bastante para recordar essa gente, e preparar os dias de festa. Não será uma coroação de muitas centenas de convidados, mas quero, pelo menos, convidar todos os rapazes do meu tempo e outros que conheci. A freguesia também não cresceu muito e por isso não vai ultrapassar as quinhentas pessoas.
- E a carne, o pão e as sopas?
- Já falei com o José da Emília que me vende dois bois. A senhora Josefa, que costuma fazer sopas muito boas, e que ainda é minha parente, também me disse que se encarregava delas, e o vinho há-de ser aqui da freguesia. Já me falaram em várias adegas que vendem vinho. Não vai faltar nada.
- E a Filarmónica, convidas?
- Vou falar à que fica mais próxima, a do Juncal.
- O Padre falou-te nos cantores da Capela?
- Falou. Ele diz que se encarrega de dizer a eles. Que eles costumam também ir ao jantar das sopas, sem mais qualquer remuneração.
- E os foliões? Não te esqueças deles… O José da Perpétua já morreu, mas há outros que o substituem muito bem. Sempre a gente entende melhor o que eles cantam. Com o José da Perpétua ninguém percebia nada. Era só ióoo, divi.. nóooo.. spiró..santóá… uma lengalenga que só dava para rir!
- Também já falei com os foliões. Com o Joaquim e o irmão e com um outro que é ferreiro. Dizem que sim senhor, com muito gosto.
- Então, tens a tua festa planeada. Agora é só ir comprando o que é preciso. Farinha, ovos, manteiga e outros sabores próprios daqueles dias. Não vai faltar quem te lembre e quem te ajude. Nestas coisas do Senhor Espírito Santo, todos se chegam para dentro. Ainda é assim. E há muitos que, quando são convidados, costumam levar ao mordomo alguma coisa para a festa. São costumes antigos.
- Adeus, até daqui a uns dias. Vou ir ao Faial ver uns amigos. Irei depois às Velas e ao Topo. Quero ver se estou de volta pelos Santos.
Assim aconteceu. A Senhora da Conceição, O Natal, o Ano Novo, a Matança do Porco, e o Carnaval foram os acontecimentos revividos de tempos passados. Até que chegou a Páscoa e a Pascoela.
                               ***
Já todos os preparativos estavam no sítio certo. Um início de semana de trabalho, de rezas e de cantigas tradicionais. As cozinheiras não tiveram mãos a medir. Pães dentro do forno, pães fora do forno, estendidos na arquibancada, cobertos com grandes mantas. Foi um tal aviar. Mais os biscoitos e “brindeiras”. Alguidares ora cheios, ora vazios.
As carnes – no campo da horta do José Joaquim, que ficava ali perto – foram sendo preparadas para enxugarem. Vieram depois, das adegas, os vinhos. Os queijos da fábrica. E as lapas para os desejos do fim do dia, após as canseiras e as rezas do terço ao Senhor Espírito Santo, de quantos se ocuparam nos afazeres.
Finalmente, o dia da Coroação. Missa às 11 horas. Com pouco atraso do senhor Padre.
- Olha, lá vem o senhor Padre, diz a tua Rosinha.
                               ***
A procissão para a Igreja começava também. Os foliões já davam sinais, cantando loas ao Mordomo e ao Senhor Espírito Santo. E já os cantores na Capela começavam “Vem Espírito Santo…”
A Missa foi cantada pelo Grupo Coral da Paróquia. E não dispensou no momento da coroação o “Veni Creator” de João Jordani, a quatro vozes, o tal que fazia estremecer os cantores, de lenço na mão a limpar o suor que escorria pelo pescoço abaixo.
 Após a missa e em procissão, ao som do tambor, em frente à porta da entrada da Casa do Povo, novamente a Capela mais os Foliões entoam o Magnificat, o cântico de acção de graças. De seguida, os símbolos do Espírito Santo são colocados em altar dignamente florido e enfeitado e todos os convidados ocupam os seus lugares no grande salão.
O João da Carolina quis que a tia Rosinha ficasse junto dele, na mesa, durante o jantar. Assim aconteceu. Foi ocasião para mais uns dedos de conversa.
- Quando ouvi cantar o Veni Creator, começou a tia Rosinha, lembrei-me do António Machado, do João Soares, e de outros cantores, como os Biscaias, os Fragas, os Lourenços, o Francisco Janeiro, o Soares e o Manuel Guiné. Cada um fazia o seu solo. Garganteavam que agente gostava de ouvir. Era mesmo bonito. Hoje são umas cantigas meias solteiras, meias corriqueiras, cada um para a sua banda…
- Ó tia Rosalina, pelas Américas é a mesma coisa. São cantigas do ié, ié, de comer, de beber, de rodopiar, balancear e estar sempre em pé!
- Tiveste muita gente na coroa. Mas isto, aos domingos, vai pouca gente á Igreja. Mas os padres também não se importam lá muito com isso. Há dias, um veio aqui para confessar, mas não apareceu ninguém. Quando saiu disse que “isto era uma terra de santos”. Já poucos se chegam.
- Eu já não digo nada. Estou há muitos anos fora. Quem se lembra do que isto era e do que agora temos, faz pensar. Mas, são os tempos de hoje. E, olhe tia Rosinha, não são os padres que vão salvar a vida da gente…Tive um velhote amigo que costumava dizer: padres, é largá-los com corda e tudo…
- Vai mais uma pinga, tia Rosinha? Olhe que ela é boa. É da adega do Manuel José. Todos dizem que é um bom vinho. Eu gosto dele.
- Não, agora não deites mais. Está bom assim.
Veio a carne assada. Veio o arroz doce. Mais uma pitada de conversa, e por ali se ficaram os comensais que passavam a agradecer o convite e a desejar felicidades.
Entretanto voltam os foliões, desta vez para agradecer:
        “Estas mesas foram postas
        Hoje com grande amor;
        Foram postas em louvor
        Do Altíssimo Senhor.
                               Por aqui vamos andando
                               Ao toque deste tambor;
                               Aqui estão os vossos servos
                               Ó meu Altíssimo Senhor.”
Pela tarde adiante, algumas sopas, pão e doces foram levados aos doentes da freguesia.
Finalmente, todos se retiram, aos poucos. E os foliões, já mais alegres e bem dispostos, vão cantando em tom jocoso:
“Recolhei-vos, pomba branca!
Recolhei-vos!
Que anda caçador em terra!”
Nos dias seguintes, foram as limpezas. Totais. O João era um homem satisfeito. Tinha cumprido a sua promessa. Lembrou os tempos da viagem. Os tempos das lavagens de roupa e das limpezas na América. Os tempos felizes do casamento. Os tempos difíceis que vieram. A tranquilidade da saúde. E o bem-estar que o Senhor Espírito Santo lhe trouxera.
- Então, estás satisfeito? Perguntou a tia Rosinha.
- Sim. Quem paga o que deve…
- Tem um lugar no céu!
- Ó tia Rosinha, isso já está ultrapassado. O céu é neste mundo. No outro, sabe-se lá. O mais importante é dignificar a vida, e em qualquer lugar do mundo. Ainda não há muito tempo que li estas palavras num jornal da Igreja Católica, lá na Califórnia.
O João da Carolina era um homem satisfeito.
                               ***
Foi mais uma coroação. Um gesto levado a efeito por quem ainda tem fé no Senhor Espírito Santo. O único Deus das gentes e dos “gentios” destas ilhas. Quem tem dúvidas?
Nas coroações há pessoas de todos os lados. Pessoas das missas dominicais sem falta, pessoas das missas de defuntos, pessoas das festas principais, pessoas de nenhuma missa. Pessoas de outras religiões ou seitas. Casados e divorciados.
O Espírito é Santo, Santíssimo, abrangente, ecuménico, universal, respeita a todos por igual e nada exige em troca a não ser fazer o bem sem olhar a quem. Toca a todos, sem distinção. É o Espírito do Povo de Deus. O Espírito mais universal que se conhece.
Soubessem disso os altos responsáveis eclesiásticos e talvez melhor servissem os povos a quem prometeram servir, sem reservas. Possivelmente teriam mais colaboradores, possivelmente menos se lamentariam.
As festas do Espírito Santo são o nosso maior valor religioso que temos. Implantado há muitos anos, é o lugar onde todos têm lugar e onde todos se sentem bem. Não cremos no aparecimento de outro, com capacidade de “renovar a face da terra”. Natália Correia acertou em cheio quando escreveu as primeiras palavras do hino da Região: “deram frutos a fé e a firmeza…”
 Boas Festas do Espírito Santo para todos.
Manuel Emílio Porto (altodoscedros.blogspot.com)







sexta-feira, 3 de junho de 2011

Diagnóstico de um teólogo

Pode-se dizer de muitas formas, mas não mais claro. O teólogo Joaquim Garcia Roca expressa-o da seguinte forma:
“Pertenço à geração dos que acreditaram, que viveram o Vaticano II como erupção de liberdade, vocação e coragem. O Concílio conformou a minha convicção da mente com a do coração.
Hoje constato que estas metas conciliares foram roubadas, por isso sofro uma profunda desafectação e dissonância cognitiva com respeito à Igreja de hoje: a que caminha para o gueto, a que ignora os testemunhos que construíram a história, a que prescinde da lucidez de alguns teólogos, a que reabilita posições sectárias, a que ignora a mulher, a que não pratica no seu interior a misericórdia nem a cultura dos direitos humanos.
Desgosta-me que a Igreja não seja contemporânea, que se feche em si mesma, que se distancie dos modos de sentir, pensar e viver da gente simples.
Este distanciamento produz efeitos devastadores. Sem ver como vivem as gentes, isto é; como são, o que querem, o que desejam, não há Igreja de Deus.
Partilho a opinião do grande teólogo dominicano francês, Yves Congar, no “Diário de um Teólogo” quando, proibido de ensinar e humilhado, reconheceu que “ lhe retiraram tudo aquilo em que acreditava”.
Esta situação não se resolve com a existência de um catecismo, nem com um papa teólogo, nem com as manifestações que lhe prestam nas praças que visita”.